Frankenstein e as guerras culturais: uma análise contemporânea


Reflexões sobre a obra de Guillermo del Toro e suas implicações na sociedade atual

Frankenstein e as guerras culturais: uma análise contemporânea
Guillermo del Toro destaca a empatia em sua adaptação de Frankenstein. Foto: João Pereira Coutinho

A obra de Guillermo del Toro traz à tona a relevância da empatia em tempos de polarização.

A nova adaptação de “Frankenstein”, dirigida por Guillermo del Toro, traz à tona questões relevantes sobre a empatia e o perdão em tempos atuais de polarização. No filme, a criatura lamenta: “Não posso morrer e não posso viver”, refletindo sobre a condição humana em um mundo que frequentemente ignora a conexão emocional entre as pessoas. Essa análise se torna ainda mais pertinente considerando as crescentes divisões sociais e políticas que marcam o cenário contemporâneo.

O legado de Mary Shelley e suas repercussões

Desde a publicação do romance de Mary Shelley em 1816, a figura do monstro de Frankenstein tem sido um símbolo das complexidades da condição humana. A obra original, escrita em um período de intensas transformações sociais e científicas, questionava onde termina o engenho humano e começa o abominável. Guillermo del Toro, ao revisitar essa narrativa, enfatiza a relevância da empatia como resposta às crises atuais.

No contexto das guerras culturais, em que a polarização se intensifica, a mensagem de del Toro sugere que a compreensão e o perdão são essenciais para a sobrevivência coletiva. A criatura de Frankenstein, assim como muitos na sociedade contemporânea, busca um sentido de pertencimento e aceitação, elementos que foram frequentemente negados.

A busca pela imortalidade e suas implicações

A obsessão por imortalidade, que permeia a nova adaptação, reflete um imaginário tecnológico contemporâneo alimentado por bilionários do Vale do Silício. Esses magnatas, em busca de juventude eterna, muitas vezes ignoram as consequências de suas ambições. No filme, Victor Frankenstein admite: “Nunca pensei no que viria depois”, uma reflexão que poderia ser aplicada aos contemporâneos que almejam a superação da morte sem considerar as implicações sociais e existenciais dessa busca.

A ausência da morte confere à vida um sentido e uma urgência que são frequentemente esquecidos em um mundo obcecado pela perpetuação da existência. Essa falta de reflexão sobre o que significa viver e morrer está no cerne das crises que enfrentamos, tanto no nível pessoal quanto social.

A empatia como resposta às divisões sociais

Guillermo del Toro introduz um elemento novo ao clássico: a empatia entre criador e criatura, assim como o perdão que a criatura concede ao seu criador. Essa mensagem, conforme apontado por críticos, é essencial em um momento em que as polarizações políticas se intensificaram, levando a um aumento do ressentimento e da desumanização do outro.

Estudos indicam que a percepção de adversários políticos como menos que humanos aumentou significativamente nos últimos anos. Em 2022, 50% dos americanos acreditavam que seus opositores não possuíam características necessárias para serem considerados plenamente humanos. Essa desumanização é perigosa e pode resultar em ciclos de violência e destruição.

A reflexão final que emerge da obra de del Toro é clara: sem empatia e perdão, as divisões sociais não apenas persistirão, mas também se intensificarão, levando a consequências devastadoras para a sociedade. A mensagem do filme é uma chamada à ação para que busquemos compreender o outro, independentemente de nossas diferenças.

Frankenstein, portanto, não é apenas uma história sobre um monstro; é um espelho que reflete nossos próprios medos e falhas, e uma convocação para redescobrir a humanidade que nos une em tempos de crises e divisões.

Fonte: redir.folha.com.br

Fonte: João Pereira Coutinho


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