Pesquisadores indicam que ameaças imediatas da inteligência artificial estão na segurança digital, não em cenários apocalípticos

Especialistas apontam que os riscos mais imediatos da inteligência artificial estão ligados a fraudes digitais, deepfakes e segurança cibernética, e não a cenários apocalípticos frequentemente divulgados na mídia.
Dario Amodei, CEO da Anthropic, e outros líderes do setor de inteligência artificial (IA) propuseram uma desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais avançados até que sejam implementadas salvaguardas eficazes. Esse debate ganhou força após declarações de Sam Altman, CEO da OpenAI, que considerou moderar o ritmo de evolução da tecnologia. Em paralelo, especialistas alertam que os riscos concretos da IA estão mais presentes no presente do que em cenários futuros apocalípticos frequentemente discutidos na mídia.
Leonardo Tomazeli Duarte, professor da Unicamp, destaca que o avanço acelerado da IA é fato, mas as especulações sobre suas consequências futuras devem ser avaliadas com cautela. Segundo ele, os riscos mais palpáveis no curto e médio prazo envolvem vieses dos modelos, alucinações e, principalmente, a segurança cibernética.
Dados recentes da Kaspersky revelam que no segundo trimestre de 2025 foram bloqueados mais de 142 milhões de cliques em links de phishing, evidenciando o crescimento das fraudes digitais. Além disso, sistemas baseados em IA identificam diariamente mais de mil páginas de phishing, reforçando a dimensão do desafio.
Sachin Kulkarni, CTO da Oscilar, relata que a IA facilitou consideravelmente a produção em escala de fraudes, com a criação de identidades sintéticas completas capazes de enganar sistemas tradicionais de detecção e biometria comportamental. Em uma operação acompanhada pela empresa, milhares de sessões fraudulentas passaram despercebidas por semanas até que padrões coletivos foram identificados.
María Isabel Manjarrez, pesquisadora da Kaspersky, enfatiza que o combate a fraudes exige sistemas de IA defensiva capazes de correlacionar múltiplos sinais técnicos e comportamentais simultaneamente, algo inviável para analistas humanos. Ela ressalta que o futuro está na interação entre IA maliciosa e IA defensiva, sempre com supervisão humana.
Kulkarni reforça que, apesar dos riscos, é possível utilizar a IA de forma segura mediante rigorosos testes, monitoramento contínuo e controle humano responsável. Ele diferencia ainda o desenvolvimento dos modelos de fronteira dos usos específicos em setores como o financeiro, que devem ser avaliados individualmente.
No contexto brasileiro, Leonardo Tomazeli chama atenção para a particularidade do país, que é altamente digitalizado e adota rapidamente tecnologias, mas com pouca participação no desenvolvimento das ferramentas e sem um marco regulatório específico para IA. Essa combinação aumenta a exposição do Brasil a crimes digitais e reforça a necessidade de posicionamento estratégico diante da transformação tecnológica.
Assim, o debate atual sobre IA concentra-se em desafios práticos e imediatos ligados à segurança digital e à fraude, enquanto cenários distópicos permanecem como especulação, segundo os especialistas consultados.









