Bolívia pode ter presidente de direita após 20 anos de hegemonia da esquerda


Divisão no MAS enfraquece a esquerda e abre caminho para vitória inédita da oposição nas eleições deste domingo (17).

A Bolívia pode viver neste domingo (17) uma virada histórica: depois de quase duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), a direita surge como favorita para conquistar a Presidência. Mais de 7,5 milhões de eleitores estão aptos a votar e definir o futuro político do país, em uma eleição que também renovará as 130 cadeiras da Câmara dos Deputados e os 36 assentos do Senado.

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Foto: Reprodução

As pesquisas mais recentes apontam para um cenário inédito desde 2006, quando Evo Morales levou o MAS ao poder: candidatos oposicionistas aparecem à frente, enquanto a esquerda amarga divisões internas e dificuldades para mobilizar seu eleitorado. Com 23% de votos ainda indefinidos — entre nulos, brancos e indecisos —, a disputa está longe de ser definida, mas os números reforçam a possibilidade de mudança no comando da nação andina.

Favoritos da direita

Entre os principais nomes está Jorge “Tuto” Quiroga, ex-presidente da Bolívia entre 2001 e 2002. Apontado como representante de uma direita mais radical, ele promete uma guinada drástica no rumo político e econômico do país. Suas propostas incluem privatizar estatais, cortar gastos públicos e revisar alianças internacionais, em especial com Venezuela, Cuba e Irã.

Quiroga já declarou, em entrevista à CNN, que pretende alinhar a Bolívia a um bloco regional com Argentina e Chile para a exploração do lítio — mineral essencial para a indústria tecnológica, do qual a Bolívia possui uma das maiores reservas do planeta. Seu discurso duro, comparado ao do presidente argentino Javier Milei, tem incluído a metáfora da “motosserra” para simbolizar cortes orçamentários.

Outro nome de destaque é Samuel Doria Medina, empresário e político de centro-direita. Dono de empreendimentos nos setores de cimento, hotelaria e alimentação, Medina aposta em uma agenda de estabilização econômica. Promete, em seus primeiros 100 dias de governo, enfrentar o déficit fiscal — que supera os 10% — e revisar subsídios de combustíveis. Para ele, a Bolívia não pode sustentar um modelo baseado em gasolina e diesel subsidiados a preços muito abaixo do mercado internacional.

Esquerda dividida e enfraquecida

Enquanto a direita consolida espaço, a esquerda boliviana enfrenta sua maior crise desde a chegada do MAS ao poder. O partido se fragmentou após desentendimentos entre Evo Morales e o atual presidente, Luis Arce. Evo, impedido judicialmente de concorrer, passou a pedir votos nulos como forma de protesto. Arce, por sua vez, desistiu de buscar a reeleição diante da baixa aprovação popular.

Os dois candidatos identificados com a esquerda são Andrónico Rodríguez, atual presidente do Senado e ex-sindicalista cocaleiro, e Eduardo del Castillo, ex-ministro de Arce. Ambos têm desempenho modesto nas pesquisas, variando entre 5% e 11% das intenções de voto. Rodríguez, antes visto como promessa de renovação, perdeu apoio após Evo Morales chamá-lo de “traidor” e após resistências internas ao nome de sua vice, Mariana Prado, ex-ministra de Planejamento.

A analista política Alina Ribeiro, da USP, observa que a divisão interna do MAS impediu uma candidatura competitiva:

“O partido poderia ter fortalecido Andrónico, que simboliza um novo sujeito indígena e camponês. Ao apostar em del Castillo, mais distante dessa base, o MAS contribuiu para a própria fragmentação”, avalia.

Incertezas no voto rural e indecisos

Apesar da vantagem da direita, o resultado ainda pode surpreender. Historicamente, pesquisas eleitorais na Bolívia enfrentam dificuldade para medir o comportamento do eleitorado rural, que costuma decidir os rumos do pleito. Nas eleições de 2020, por exemplo, o apoio a Luis Arce foi subestimado nas sondagens.

A pesquisa AtlasIntel divulgada na sexta-feira (15) mostra 23% do eleitorado declarando voto nulo, branco ou indefinido. Esse contingente pode alterar o equilíbrio da disputa e definir se a vitória será no primeiro turno ou se haverá necessidade de segundo turno, marcado para 19 de outubro.

A sombra de 2019 e a prisão de Camacho

O processo eleitoral atual é marcado também pelo fantasma da crise de 2019, quando protestos e denúncias de fraude levaram Evo Morales a renunciar, sob pressão das Forças Armadas. Na ocasião, Jeanine Áñez assumiu interinamente a Presidência, sendo depois condenada a 10 anos de prisão por seu papel no episódio, considerado um golpe de Estado pelos aliados de Morales.

Outro personagem que volta ao debate é Luis Fernando Camacho, ex-governador de Santa Cruz e preso pelos motins de 2019. Quiroga já afirmou que, se eleito, pretende libertá-lo, tratando-o como “preso político”. O gesto simboliza uma tentativa de unificar a oposição em torno de figuras críticas ao MAS.

Propostas e perspectivas

Além de questões políticas, a eleição também gira em torno da economia. A Bolívia enfrenta escassez de dólares, crise fiscal e dificuldades no abastecimento de combustíveis. Medina promete atacar o déficit fiscal, enquanto Quiroga fala em reformas constitucionais e judiciais, além de reposicionar a Bolívia no cenário internacional.

Outros candidatos, como Rodrigo Paz Pereira (8,3%) e Manfred Reyes (7,7%), também aparecem nas pesquisas, mas com menos chances de chegar ao segundo turno.

Como funciona a votação

As urnas abrirão às 8h e fecharão às 16h (horário local). O sistema é em papel, com cédulas grandes em que o eleitor marca seus candidatos a presidente, vice, deputados e senadores. Os votos são depositados em urnas de papelão transparentes e contados manualmente. As atas são fotografadas e enviadas ao Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), que divulgará resultados preliminares ainda no domingo. O resultado oficial, no entanto, só será conhecido após a revisão detalhada de cada ata.

O que está em jogo

O pleito deste domingo pode encerrar um ciclo de 20 anos de hegemonia do MAS e abrir espaço para um governo de direita em um país estratégico da América do Sul, com reservas minerais de importância global. A divisão da esquerda, o alto índice de indecisos e a pressão por soluções econômicas rápidas tornam a eleição uma das mais imprevisíveis da história recente boliviana.

Se confirmada a vitória de Quiroga ou Medina, a Bolívia deve passar por mudanças profundas em sua política econômica e externa, redefinindo seu papel no Mercosul, no Brics e na integração regional.

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Com informações da Agência Brasil


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