Em um marco histórico na política boliviana, a esquerda, liderada pelo Movimento ao Socialismo (MAS), não conseguiu garantir sua presença no segundo turno das eleições presidenciais pela primeira vez em quase duas décadas. Os resultados preliminares apontam para uma disputa acirrada entre os candidatos da oposição, o senador Rodrigo Paz Pereira e o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga. A apuração final, com potencial para redefinir o cenário político do país, é aguardada nos próximos dias.
Paz Pereira lidera a corrida com 32,08% dos votos, seguido por Quiroga com 26,94%, segundo dados da autoridade eleitoral. O empresário Samuel Doria Medina, que alcançou 19,93%, já declarou apoio a Paz Pereira. Na esquerda, Andrónico Rodríguez, presidente do Senado, obteve 8,11%, enquanto Eduardo del Castillo, apoiado pelo presidente Luis Arce, conquistou apenas 3,14%. Curiosamente, os votos nulos, incentivados por Evo Morales, atingiram expressivos 19%.
A ascensão de Paz Pereira surpreendeu analistas, consolidando sua liderança. O senador, natural de Tarija e filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, capitalizou o descontentamento regional e emergiu como um polo de oposição ao evismo. Samuel Doria Medina, reconhecendo a derrota, cumpriu sua promessa de apoiar o candidato mais bem posicionado da oposição: “Bem, esse candidato é Rodrigo Paz, e eu mantenho minha palavra.”
A fragmentação da esquerda contribuiu para o revés histórico. Andrónico Rodríguez, outrora considerado o sucessor de Evo Morales, rompeu com o ex-presidente e lançou candidatura independente. Luis Arce desistiu da reeleição, e Evo Morales, impedido de concorrer judicialmente, incentivou o voto nulo em forma de protesto. A divisão interna expôs vulnerabilidades e dificultou a manutenção do poder.
Ademais, a crise econômica intensificou o desgaste do governo. A queda nas reservas internacionais, a retração nas exportações de gás, a inflação de 25% em 12 meses e a escassez de combustíveis alimentaram o descontentamento popular, abrindo caminho para o avanço da oposição. Este cenário de instabilidade econômica e política pavimentou a via para a inédita disputa em segundo turno.
A Constituição de 2009 prevê o segundo turno, mas esta será a primeira vez que o mecanismo será acionado. Diante da necessidade de um novo pleito, marcado para 19 de outubro, a expectativa é alta. Em discurso, Paz Pereira sinalizou o desejo de uma transformação profunda: “É o início de uma grande transformação”, prometendo “varrer a corrupção” e superar o que chamou de “Estado de bloqueio”.





