Washington cancela vistos de dois ex-integrantes da gestão federal; medida é parte de ofensiva contra programa acusado de favorecer regime cubano
O governo dos Estados Unidos anunciou, nesta quarta-feira (13), uma nova rodada de sanções que atinge diretamente dois brasileiros ligados ao programa Mais Médicos. A medida, que inclui o cancelamento de vistos, amplia a pressão diplomática de Washington contra o Brasil e outros países envolvidos na cooperação médica com Cuba.

Os atingidos são Mozart Julio Tabosa Sales, atual secretário do Ministério da Saúde, e Alberto Kleiman, ex-coordenador-geral da COP30 e ex-integrante da gestão federal responsável pela saúde pública. Ambos ocupavam cargos de influência quando o Mais Médicos foi implementado, ainda na administração da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
De acordo com comunicado oficial, o Departamento de Estado norte-americano considera que o programa serviu para “driblar o embargo econômico” imposto a Cuba desde a década de 1960, ao mesmo tempo em que configurou um “esquema coercitivo de exportação de mão de obra”.
O alvo de Washington
A declaração veio acompanhada de críticas contundentes feitas pelo secretário de Estado, Marco Rubio. Filho de imigrantes cubanos e crítico histórico do regime de Havana, Rubio afirmou que a iniciativa “explora trabalhadores médicos cubanos por meio de trabalho forçado” e “enriquece um regime corrupto enquanto priva o povo cubano de cuidados essenciais”.
Além do Brasil, a medida atinge funcionários de governos de Cuba, Granada e de países africanos, bem como integrantes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entidade responsável por intermediar o acordo que trouxe médicos cubanos para atuar em áreas carentes no Brasil.
Segundo o modelo adotado à época, os salários dos profissionais não eram pagos diretamente pelo governo brasileiro. Os valores eram repassados à OPAS, que transferia o montante ao governo cubano. Parte significativa da remuneração, no entanto, era retida por Havana, situação que motivou denúncias de médicos e críticas internacionais.
Contexto político e diplomático
A decisão ocorre em meio a um cenário de tensões recorrentes entre Brasil e Estados Unidos desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Embora o presidente Joe Biden tenha se comprometido, no plano retórico, a fortalecer relações com a América Latina, a postura da diplomacia norte-americana tem variado, sobretudo em questões sensíveis como comércio, meio ambiente e política externa.
A ofensiva contra o Mais Médicos se soma a outras medidas adotadas recentemente pelo governo de Donald Trump — que voltou à Casa Branca — contra autoridades brasileiras. Em julho, oito ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram vistos cancelados, num gesto interpretado como tentativa de interferir politicamente no Brasil.
Desta vez, porém, diplomatas ressaltam que as sanções relacionadas ao programa de saúde têm caráter específico e refletem a política de Rubio de endurecer o cerco ao regime cubano.
Defesa do governo brasileiro
Em resposta, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu publicamente o Mais Médicos. “É um programa que salva vidas e é aprovado por quem mais importa: a população brasileira”, afirmou em publicação no X. Padilha também disse que o Brasil não vai se curvar a quem “ataca as vacinas, os pesquisadores e a ciência”.
O programa foi criado em 2013 com o objetivo de suprir a escassez de médicos em regiões remotas e periferias urbanas, onde a presença de profissionais brasileiros era reduzida. Dados oficiais indicam que milhões de atendimentos foram realizados em áreas antes sem cobertura médica.
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Ainda assim, o formato de contratação e remuneração dos médicos cubanos sempre esteve no centro de polêmicas, gerando ações judiciais e questionamentos no Congresso.
Próximos passos
O cancelamento dos vistos de Sales e Kleiman não implica, por si só, em medidas judiciais contra eles nos Estados Unidos. No entanto, a inclusão de seus nomes na lista de sanções poderá limitar sua participação em fóruns internacionais e em negociações multilaterais, especialmente em áreas relacionadas à saúde pública e cooperação internacional.
Especialistas em relações exteriores avaliam que o episódio tende a acirrar o debate no Brasil sobre a continuidade e o formato de programas de cooperação com Cuba. Para opositores do governo, a decisão de Washington é uma confirmação de que o Mais Médicos, embora popular, foi estruturado de forma a atender interesses políticos de Havana. Para defensores, trata-se de uma ação ideológica que ignora o impacto positivo do programa na vida de milhões de brasileiros.
Enquanto isso, no Congresso Nacional, parlamentares já articulam a convocação de Mozart Sales e Alberto Kleiman para prestar esclarecimentos sobre suas atuações no Mais Médicos e responder a perguntas sobre a intermediação feita pela OPAS.
O episódio marca mais um capítulo no intrincado relacionamento entre Brasil e Estados Unidos, em que a cooperação bilateral convive com momentos de atrito. A forma como o governo Lula administrará a reação a essa nova rodada de sanções poderá indicar se a relação tende a se desgastar ainda mais ou se haverá espaço para recomposição diplomática nos próximos meses.
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