Em um mergulho introspectivo, o autor revisita as lembranças da infância, um período marcado pela inocência e pela capacidade de se maravilhar com o mundo. A reflexão surge em um momento de desaceleração, propício para a meditação e o resgate das vivências que moldaram sua trajetória. O tempo, implacável em sua jornada, paradoxalmente fortalece o valor das memórias, como pontes que nos conectam ao passado.
O texto evoca a figura materna, professora dedicada e provedora incansável, e os presentes simples que preenchiam os natais da infância. Carros de fricção, bolas, ferroramas, fortes apaches e soldadinhos de chumbo povoam as lembranças, símbolos de uma época de descobertas e brincadeiras despreocupadas. O quintal de casa se transforma em um universo particular, palco de aventuras e aprendizados.
O contato com a natureza se destaca nas memórias do autor, desde o sabor das frutas colhidas no pé até a criação de animais como coelhos, preás, codornas e peixes. A liberdade de andar descalço, o cheiro da terra molhada e a alegria de soltar barquinhos de papel na enxurrada evocam a pureza e a simplicidade da infância. Empinar papagaios e construir pipas também marcam essa fase da vida.
As noites estreladas e os desenhos formados pelas nuvens no céu despertavam a imaginação do autor, um sonhador que encontrava nos sonhos a matéria-prima para a vida. Como ressalta Mia Couto, “a infância não é um tempo, não é uma idade, é uma coleção de memórias”. Essa coleção permanece viva, mesmo no outono da vida, como uma fonte inesgotável de inspiração e alegria.
O autor expressa um arrependimento: o desejo precoce de ser adulto. Ele reconhece a sacralidade da infância e a importância de preservar o espírito infantil. Ao observar seu neto Heitor, com apenas nove meses, ele vislumbra a continuidade da vida e deseja que ele aproveite cada instante mágico da infância. Um ciclo que se renova, unindo gerações através das memórias e da celebração da vida.
Fonte: http://www.folhabv.com.br










