A vida de Gerson de Melo Machado revela descaso com a saúde mental e negligência familiar

A história de Gerson de Melo Machado é marcada por negligências que culminaram em sua morte por uma leoa.
A chocante atitude de Gerson de Melo Machado, 19 anos, ao invadir a jaula de uma leoa no zoológico de João Pessoa, expõe uma tragédia maior, marcada por negligências que marcaram sua vida. Desde a infância, Gerson foi afastado de sua mãe, diagnosticada com esquizofrenia, uma condição que também afetou sua avó. Ele recebeu diagnósticos de retardo mental e esquizofrenia na adolescência, evidenciando a falta de acompanhamento adequado em sua trajetória.
Na manhã fatídica, Gerson escalou um muro de seis metros e adentrou o recinto da leoa Leona, no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, conhecido como Bica. Ele foi atacado e morto, em um episódio que chocou visitantes que presenciaram a cena. A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhava Gerson há nove anos, relembra o sonho do jovem de se tornar domador de leões, uma aspiração que revela sua ligação intensa com os animais, mas também seu profundo desvio da realidade.
Verônica destaca que Gerson já havia tentado fugir para a África, sendo pego em um avião, o que demonstra sua busca por uma vida diferente e uma fuga de sua realidade dolorosa. Ela reflete sobre a necessidade de um acompanhamento de saúde mental que nunca ocorreu, resultando em um desfecho trágico: “Ele precisava de acompanhamento de saúde mental digno, mas não teve. Todo o poder público falhou com ele, com a família.”
O jovem foi acolhido pelo Conselho Tutelar pela primeira vez aos 10 anos, após ser encontrado sozinho à beira da estrada, fugindo de um abrigo. Sua vida foi marcada por tentativas de retorno à sua família, que, apesar da destituição da mãe, era seu desejo constante. A falta de um ambiente familiar adequado e o abandono por parte do sistema de proteção social foram fatores que contribuíram para sua trajetória de vida.
Após diversas tentativas de adoção, sem sucesso, Gerson foi negligenciado pelo sistema. Em 2023, finalmente recebeu um laudo médico que diagnosticou seu retardo mental e transtornos de conduta, mas somente depois de ter sofrido diversas violências e violações. O laudo recomendava tratamento multidisciplinar, mas a realidade era que ele já havia enfrentado muitos horrores sem o devido suporte.
Gerson teve passagens pela polícia e internações em centros socioeducativos, onde se sentia mais seguro e medicado. No entanto, ao atingir a maioridade, suas ações tiveram consequências mais severas. Ele foi detido por pequenos delitos e, na última semana, tentou arrombar um caixa eletrônico, resultando em sua prisão e subsequente liberação após audiência de custódia.
A tragédia pode ser vista como um reflexo do descaso no tratamento de pessoas com problemas de saúde mental. Edmilson Alves, diretor do presídio onde Gerson foi mantido, expressou a necessidade de tratamento adequado e ressaltou que a Justiça reconheceu que ele não deveria estar preso, mas sim sob cuidados apropriados. “Ele gostava de estar lá, se sentia seguro e era medicado”, diz Verônica, evidenciando a falta de estrutura adequada na cidade.
Um dia após ser solto, Gerson procurou o Conselho Tutelar e pediu ajuda para conseguir um emprego. No entanto, sua falta de uma casa fixa e o convívio com a avó esquizofrênica dificultavam sua situação. Verônica destaca que a morte de Gerson deveria servir de alerta sobre a necessidade de ações mais eficazes no atendimento a jovens com deficiências mentais, que muitas vezes são deixados à própria sorte.
A falta de assistência em saúde mental em João Pessoa é alarmante, e a conselheira tutelar finaliza: “Por que precisou morrer para se provar que ele tinha deficiência mental e precisava de cuidados? Que fique o exemplo para todos.” A tragédia de Gerson clama por uma reflexão profunda sobre como o sistema lida com jovens vulneráveis e a importância de um acompanhamento digno e humano.
Fonte: noticias.uol.com.br
Fonte: Presídio do Róger, em João Pessoa










