Indicado por Dilma Rousseff, ministro herda tribunal em momento de tensão com o bolsonarismo e promete foco institucional.
Edson Fachin, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) desde 2015, assumiu nesta segunda-feira (26) a presidência da Corte e também do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para um mandato de dois anos. Ele sucede Luís Roberto Barroso e terá como vice Alexandre de Moraes, relator de processos relacionados ao núcleo golpista que envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Fachin foi indicado ao Supremo pela então presidente Dilma Rousseff, após consolidar carreira acadêmica e jurídica no Paraná. É professor titular de Direito Civil da Universidade Federal do Paraná (UFPR), instituição onde leciona há mais de três décadas. Também atuou como procurador do Estado entre 1990 e 2006, além de ter pós-doutorado em universidades internacionais e publicações relevantes na área do Direito.
Perfil de votação e atuação em pautas polêmicas
Desde sua chegada ao STF, Fachin se destacou por votos considerados progressistas em pautas sociais, ambientais e de direitos humanos. Foi favorável ao reconhecimento da união homoafetiva, defendeu a demarcação de terras indígenas e votou em processos que limitaram a letalidade policial em comunidades do Rio de Janeiro, no caso conhecido como ADPF das Favelas.
No entanto, seu perfil também é garantista no campo penal. Durante a Operação Lava Jato, Fachin foi relator de diversos processos que envolveram políticos e empresários de grande influência, mas buscou dar ênfase ao devido processo legal. Também ficou marcado por votos em casos como a anulação de condenações de Lula em Curitiba, decisão que impactou diretamente o cenário político nacional.
Experiência no TSE e defesa da democracia
Entre 2020 e 2022, Fachin presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nesse período, reforçou medidas de combate à desinformação e às fake news, sobretudo durante as eleições de 2022. Sua gestão foi marcada por embates indiretos com apoiadores do bolsonarismo, que questionavam a legitimidade das urnas eletrônicas.
Em discursos, Fachin defendeu a democracia e afirmou que “quem deslegitima a Justiça Eleitoral atenta contra a própria democracia”. Essa postura o aproximou das discussões institucionais que continuam a ecoar no STF, sobretudo diante dos julgamentos envolvendo os ataques de 8 de janeiro e as investigações sobre o núcleo golpista que orbita em torno de Jair Bolsonaro.
O que esperar de sua presidência
A chegada de Fachin à presidência ocorre em um momento delicado, em que o Supremo é constantemente colocado no centro das tensões políticas. Com Alexandre de Moraes na vice-presidência, a Corte mantém sua atenção sobre processos de grande impacto, como as ações que apuram a tentativa de golpe e a responsabilidade de militares e políticos ligados ao bolsonarismo.
Analistas avaliam que Fachin deve adotar uma postura mais discreta e institucional em comparação a antecessores, buscando reduzir embates diretos entre o STF e outros Poderes. Sua meta principal tende a ser reforçar a imagem do Supremo como guardião da Constituição, sem abrir mão de decisões de alto impacto social.
Entre as pautas que devem ganhar prioridade estão julgamentos sobre direitos trabalhistas na era digital, como a discussão sobre vínculo empregatício de motoristas e entregadores de aplicativos, além de casos relacionados à proteção ambiental e à defesa dos direitos dos idosos.
Contexto político e desafios institucionais
O novo presidente do STF assume a cadeira em um cenário em que o tribunal se tornou árbitro central da democracia brasileira. As investigações contra Jair Bolsonaro e seus aliados ainda estão em curso, e o Supremo seguirá como protagonista nesse debate. Fachin terá de equilibrar a defesa da Constituição com o risco de novos embates com setores políticos que tentam desgastar a imagem da Corte.
Outro desafio será manter o diálogo com o Executivo e o Legislativo. O presidente Lula, presente na posse, já sinalizou interesse em preservar a harmonia institucional, mas os julgamentos que envolvem interesses políticos e econômicos continuarão testando a independência da Suprema Corte.
Um ministro marcado pela discrição e pela firmeza
Embora seja menos midiático que outros colegas, Fachin se consolidou como um ministro firme em suas convicções e crítico ao populismo judicial. Em artigos acadêmicos recentes, alertou para os riscos da “sociedade do espetáculo” na atuação do Judiciário, defendendo que a Corte deve se pautar pelo equilíbrio institucional e pela defesa de princípios democráticos.
Sua presidência, portanto, será observada de perto não apenas pelos próximos julgamentos, mas pela forma como conduzirá a relação entre o Supremo, a política e a sociedade brasileira em um momento em que o país ainda lida com as cicatrizes da tentativa de ruptura democrática de 2023.










