Valorização de startups de IA não se traduz em liquidez real aos investidores, revela relatório PitchBook

Apesar da valorização explosiva das startups de IA, o mercado de venture capital enfrenta crise de liquidez, com ganhos no papel que não chegam ao bolso dos investidores, mostra PitchBook.
O mercado americano de venture capital vive uma ilusão de prosperidade impulsionada pelo boom das startups de inteligência artificial (IA), mas os números reais escondem uma crise de retornos que ameaça a sustentabilidade dos investimentos. Um relatório divulgado pelo PitchBook em 4 de junho de 2026 expõe que, embora a valorização contábil (NAV) das startups de IA tenha subido 21,6%, essa alta ainda não se converteu em liquidez efetiva para os investidores, os chamados limited partners (LPs).
Segundo o Q2 2026 US VC Fundraising and Returns Report, a taxa interna de retorno (IRR) de um ano dos fundos de venture capital chegou a 17,1% no último trimestre de 2025 – uma cifra quase três vezes maior que os 6,2% do mercado de private capital. No entanto, essa aparente recuperação é sustentada principalmente por ganhos “no papel”, enquanto as distribuições de capital, que representam o dinheiro efetivamente devolvido, permanecem abaixo da média histórica.
O fenômeno gera um perigoso cenário de concentração: megafundos com mais de US$ 1 bilhão captaram 68,3% de todo o capital levantado, e apenas 12 gestoras controlam quase três quartos dos compromissos de investimento dos LPs. Em contrapartida, fundos menores, com menos de US$ 50 milhões, representam 67,7% em número, mas ficaram com apenas 4% do capital captado. Essa “fuga para a qualidade” restringe a diversidade e favorece um grupo seleto que domina o mercado, podendo pagar mais caro pelos melhores negócios e capturar a maior parte dos retornos futuros.
Ainda que o boom da IA impulsione algumas empresas líderes, a maior parte dos fundos da safra de 2025 apresenta desempenho negativo, com IRR mediana em -2% sem os ganhos concentrados nos megafundos. Além disso, o relatório alerta que menos de 50 startups abrem capital por ano, enquanto mais de 950 unicórnios permanecem aguardando oportunidades de saída, o que limita ainda mais a liquidez do mercado.
Kyle Stanford, diretor de pesquisa de Venture Capital da PitchBook, destaca que a falta de distribuições de recursos prejudica a capacidade dos LPs de diversificar portfólios e realocar capital, acentuando a concentração e tornando o mercado mais vulnerável a choques. O cenário revela que o brilho do boom da IA mascara uma crise estrutural que pode impactar a dinâmica do investimento em tecnologia nos próximos anos.









