Pastor assumia papel de estrategista e ditava narrativas ao ex-presidente
O pastor Silas Malafaia, um dos aliados mais próximos de Jair Bolsonaro, tem se revelado uma figura central – e problemática – na crise política e jurídica que envolve o ex-presidente. Documentos da Polícia Federal e decisões do Supremo Tribunal Federal mostram que Malafaia não se limitava a apoiar Bolsonaro: ele pressionava, ditava narrativas e chegou a ameaçar até mesmo Eduardo Bolsonaro, cobrando alinhamento em torno da estratégia do chamado “tarifaço” dos Estados Unidos.

Orientações que complicaram Bolsonaro
As mensagens interceptadas pela PF apontam que Malafaia sugeriu a Bolsonaro explorar politicamente a suspensão das tarifas impostas pelos EUA sobre o aço brasileiro. Para ele, o ex-presidente deveria usar o tema como arma de barganha, vinculando o assunto à aprovação de uma anistia ampla para os réus do 8 de janeiro.
Em entrevistas, o pastor admitiu seu protagonismo:
“Eu não sou manipulado, sou amigo da família Bolsonaro, mas também falo o que precisa ser falado”, declarou.
A interferência, porém, foi além das conversas privadas. Malafaia ditava o tom das falas públicas de Bolsonaro, construindo narrativas que, segundo investigadores, alimentavam a percepção de chantagem contra ministros do STF e suas famílias.
Conflito com Eduardo Bolsonaro
O estilo centralizador do pastor se estendia até aos filhos do ex-presidente. Em um áudio, Malafaia não poupou críticas a Eduardo Bolsonaro, a quem chamou de “babaca” e “inexperiente”, por não seguir à risca suas orientações. Em contrapartida, elogiou Flávio Bolsonaro por adotar um tom mais próximo ao que ele considerava “estratégico”.
Esse episódio reforçou a imagem de que Malafaia se colocava como um verdadeiro coordenador paralelo da comunicação bolsonarista, passando a intervir não apenas em decisões políticas, mas até nas disputas internas da família.
Ameaças veladas e retaliações
A PF destacou que o pastor chegou a sugerir retaliações contra ministros do STF, mencionando inclusive familiares das autoridades como alvo de pressão. Esse tipo de narrativa fortaleceu a tese de que havia uma rede organizada para tentar intimidar instituições democráticas, o que acabou agravando ainda mais o quadro judicial de Bolsonaro.
Para os investigadores, a atuação de Malafaia não pode ser vista como mera manifestação política, mas como uma tentativa de estruturar um ambiente de chantagem e radicalização.
Do púlpito à condição de investigado
O excesso de protagonismo custou caro. Malafaia foi alvo de busca e apreensão, teve seus passaportes retidos e está proibido de manter contato com Bolsonaro e Eduardo. A decisão do ministro Alexandre de Moraes reforçou a visão de que o pastor não era um simples aliado, mas alguém que atuava como peça-chave em uma engrenagem de pressão contra o Supremo.
Mesmo assim, Malafaia se apresenta como vítima. Após as medidas cautelares, declarou:
“Sou alvo da Gestapo de Moraes, mas não tenho medo. Continuo amigo da família Bolsonaro e ninguém vai me calar”.
A fala reflete não apenas sua postura desafiadora, mas também um discurso de autopreservação que ignora o peso das acusações formais.
Ego inflado e efeito colateral
Para analistas políticos, o caso expõe uma fragilidade na defesa de Bolsonaro: a dependência de figuras movidas pelo ego, que se veem como estrategistas, mas acabam prejudicando a própria narrativa do ex-presidente. Ao tentar ditar caminhos, Malafaia intensificou a vigilância das autoridades sobre o entorno bolsonarista e ampliou as evidências de articulação contra a democracia.
A ironia é que, ao tentar proteger Bolsonaro, Malafaia contribuiu para reforçar a tese de que havia um esquema coordenado para intimidar instituições. Sua vaidade pessoal, somada à ânsia por protagonismo, transformou-o em um dos maiores problemas para a estratégia de sobrevivência política do ex-presidente.
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