O café, um ritual diário para milhões, já foi alvo de desconfiança. Rumores sobre úlceras, pressão alta e até câncer assombraram a bebida. Mas a ciência moderna tem reescrito essa narrativa, transformando o café de possível vilão em potencial aliado da saúde.
Em 1991, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) classificou o café como “possivelmente carcinogênico para humanos”, com base em estudos que sugeriam ligação com câncer de bexiga. Essa classificação inicial gerou apreensão em muitos consumidores. No entanto, pesquisas subsequentes lançaram nova luz sobre o assunto.
Estudos caso-controle, que comparam hábitos passados de pessoas com e sem câncer, foram considerados metodologicamente falhos. A memória humana é falível, especialmente quando se busca entender as causas de uma doença. Estudos prospectivos, que acompanham indivíduos saudáveis ao longo do tempo, trouxeram resultados mais confiáveis.
Essas pesquisas mais robustas revelaram uma associação inversa entre o consumo de café e o risco de certos tipos de câncer. Análises indicam que bebedores de café têm, em média, 18% menos chances de desenvolver câncer. Para o câncer de fígado, o benefício é ainda mais notável: até 40% menos risco com 3 a 4 xícaras diárias.
A reviravolta foi tão significativa que, em 2016, a Iarc retirou o café da lista de substâncias “possivelmente carcinogênicas”. “Desculpe, café, parece que cometemos um engano”, foi, em essência, a retratação pública da agência, conforme reportado pelo Jornal da USP.
A complexidade química do café pode ser a chave para seus benefícios. Polifenóis, antioxidantes e ácidos clorogênicos presentes na bebida podem combater o estresse oxidativo, a inflamação e até influenciar a expressão de genes relacionados ao câncer. A cafeína também demonstra efeitos antiproliferativos em algumas células cancerígenas.
É crucial, contudo, consumir café com moderação. Bebidas excessivamente quentes podem aumentar o risco de câncer de esôfago. Grávidas devem limitar a ingestão de cafeína. E, fundamentalmente, o café deve ser parte de um estilo de vida saudável, que inclua exercícios e alimentação equilibrada.
“Os benefícios mais consistentes são observados com consumo de três a quatro xícaras por dia”, explica Hamilton Roschel, da USP. Portanto, o café, apreciado com moderação e como parte de um estilo de vida saudável, pode ser desfrutado com tranquilidade, oferecendo mais do que apenas um despertar matinal.










