Ex-comandante da Aeronáutica revela articulações golpistas com aval de Bolsonaro

Carlos Almeida Baptista Júnior prestou depoimento no inquérito que investiga suposta tentativa de golpe em 2022

O depoimento do ex-comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos Almeida Baptista Júnior, ao Supremo Tribunal Federal (STF) escancarou os bastidores de reuniões e pressões que marcaram os dias seguintes à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022. Segundo o militar, Jair Bolsonaro (PL) participou diretamente das tratativas para tentar impedir a posse do presidente eleito, com apoio parcial das Forças Armadas — em especial da Marinha.

O ex-comandante da Aeronáutica confirmou o teor do seu depoimento anterior concedido à Polícia Federal (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

De acordo com o relato, a tentativa de ruptura institucional não foi apenas teoria conspiratória: ela esteve em fase avançada de articulação, com minuta de decreto na mesa, sugestão de prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal e discussões frequentes sobre a aplicação de instrumentos jurídicos como o estado de defesa e o uso das Forças Armadas por meio da GLO (Garantia da Lei e da Ordem).

Minuta do golpe

O ponto de inflexão, segundo Baptista Júnior, ocorreu quando o então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, apresentou uma minuta de decreto golpista. O documento previa impedir a posse de Lula e chegou a mencionar a prisão de opositores políticos do STF., Ao ser questionado diretamente se o texto propunha barrar a posse, Nogueira afirmou que ‘sim”. Diante da gravidade do conteúdo, o brigadeiro recusou-se a receber o documento e avisou que a Aeronáutica não participaria de qualquer tentativa de ruptura institucional.

Bolsonaro no centro das articulações

O ex-comandante afirmou ao STF que Bolsonaro não apenas tinha conhecimento dos planos como também participou de reuniões para discutir os caminhos possíveis. Esses encontros ocorreram no Palácio da Alvorada, logo após o segundo turno, com a presença de militares de alta patente. Entre os temas discutidos estavam a decretação de estado de defesa, o uso da GLO e até a não diplomação do presidente eleito.

Marinha à disposição

Um dos trechos mais sensíveis do depoimento envolve o comportamento do comandante da Marinha à época, almirante Almir Garnier Santos. Segundo Baptista Júnior, Garnier colocou as tropas navais à disposição de Bolsonaro durante discussões sobre planos para impedir a posse de Lula. A posição da Marinha contrastou com a do Exército e da Aeronáutica, que rejeitaram a proposta.

Tentativa de golpe fracassou por falta de consenso

Segundo Baptista Júnior, os planos golpistas não avançaram porque não houve apoio integral entre os comandantes militares. Faltou uma adesão “unânime” das Forças Armadas para que qualquer medida extrema fosse colocada em prática.

Bolsonaro foi alertado sobre ausência de fraudes nas urnas

Questionado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, o ex-comandante afirmou que Bolsonaro foi informado de que não havia qualquer indício de fraude no sistema eleitoral. Segundo ele, essa informação chegou ao presidente por meio do próprio ministro da Defesa: “Sim, Bolsonaro foi informado disso por meio do ministro da Defesa. Além de reuniões que eu falei, o ministro da Defesa que despachava sobre esse assunto.”

Tentativa de Prisão de Alexandre de Moraes

Baptista Júnior confirmou que, durante as discussões sobre medidas para impedir a posse de Lula, foi apresentada uma minuta de decreto que previa a prisão de opositores políticos e do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. O plano foi discutido em reuniões com a presença de Jair Bolsonaro e outros membros do alto escalão militar.

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