A vastidão do Centro-Oeste brasileiro já abrigou um único e imenso Mato Grosso, estendendo-se do Pantanal à Amazônia. Distâncias colossais e interesses econômicos distintos, no entanto, moldaram um novo mapa, dando origem a três estados irmãos: Mato Grosso, Rondônia e Mato Grosso do Sul, cada qual com sua identidade e peculiaridades.
Cada estado ostenta um sotaque, culinária e cultura singulares. Em Rondônia, a Amazônia se manifesta em sabores de cupuaçu e tucupi, temperados com a influência do Pará e do Nordeste. Já em Mato Grosso, o pequi e o pacu ditam o paladar, enquanto a viola cadencia o falar, com seus “r” leves e “s” sibilantes.
Mato Grosso do Sul, o caçula, exala aroma de carne vermelha, tereré e chipa. Seu sotaque, uma mistura de caipira e urbano, carrega a marca da fronteira com o Paraguai e a proximidade com São Paulo. O “r” característico, pronunciado no céu da boca, diverte quem o ouve pela primeira vez.
A divisão inicial ocorreu em 1943, quando Getúlio Vargas criou o Território Federal do Guaporé, posteriormente renomeado Rondônia em homenagem ao Marechal Rondon. A região, estratégica para a produção de borracha durante a Segunda Guerra Mundial, ascendeu ao status de estado em 1981, garantindo autonomia política.
Atualmente, Rondônia celebra a mistura de migrantes nordestinos, amazônidas e sulistas. Festas de boi-bumbá, arraiais juninos e a culinária rica em peixes e ingredientes regionais, como o tambaqui assado, o tacacá e o pirarucu de casaca, são expressões vibrantes dessa diversidade cultural.
O engenheiro eletricista Alysson Bernardes, natural de Corumbá, trocou o Pantanal pela Amazônia e reside em Porto Velho desde 2001. Ele relata que “a umidade por lá é tão intensa que a gente tem de tomar cuidado até com as roupas, em determinadas épocas do ano, porque mofa mesmo”.
Enquanto isso, Mato Grosso nasceu da corrida pelo ouro no século XVIII, com a fundação de Cuiabá em 1719. A pecuária e a agricultura se tornaram as bases da economia após o esgotamento do ouro. O estado preserva sua herança cultural, combinando influências sertanejas, indígenas e pantaneiras em danças, músicas e pratos típicos.
Mojica de pintado, arroz com pequi e farofa de banana são algumas das iguarias que refletem o modo de vida das comunidades ribeirinhas e rurais. O estado se orgulha de ser o “tronco” que deu origem aos seus irmãos.
Mato Grosso do Sul surgiu em 11 de outubro de 1977, por meio da Lei Complementar nº 31, durante o governo de Ernesto Geisel. A instalação oficial ocorreu em 1º de janeiro de 1979, com Campo Grande como capital, atendendo ao desejo dos moradores do sul do antigo Mato Grosso, que buscavam maior atenção e investimentos.
A cultura sul-mato-grossense é um mosaico influenciado pelas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia, além da presença de migrantes vindos de outros estados. O tereré, a chipa, o arroz carreteiro, o sobá e a música sertaneja são símbolos dessa identidade em construção.
Uma curiosidade marca a assinatura da lei que criou Mato Grosso do Sul: a caneta utilizada por Ernesto Geisel. Há controvérsia sobre qual caneta foi usada. Segundo relatos, o produtor rural Antônio Ferreira dos Reis, conhecido como Varanda, teria emprestado a sua Parker 51 ao presidente. Outras versões apontam que o responsável pelo instrumento foi Marcelo Miranda, então prefeito de Campo Grande.
Nos primeiros anos, o estado enfrentou desafios para consolidar sua estrutura administrativa. Entre 1980 e 1985, chegou a superar Mato Grosso em número de habitantes, demonstrando o rápido crescimento da região. O agronegócio impulsionou a economia, consolidando o estado como um polo econômico regional.










