Estudo da Fiocruz revela dados alarmantes sobre a violência durante a gestação.

Estudo revela que 66% das mulheres no RJ sofreram violência obstétrica, destacando desigualdades no atendimento.
Um estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que cerca de dois terços das mulheres no Rio de Janeiro já vivenciaram algum tipo de violência obstétrica. Esse levantamento, parte da pesquisa “Nascer no Brasil”, foi divulgado na quarta-feira (3) e traz dados inéditos sobre as experiências de parto e as condições de saúde das mulheres no estado.
Contexto da pesquisa sobre violência obstétrica
A pesquisa analisou 1.923 mulheres que foram entrevistadas em 29 maternidades, tanto públicas quanto privadas, em 18 municípios do Rio de Janeiro. Além de dados sobre violência obstétrica, o estudo abordou aspectos como o perfil das puérperas, as condições das maternidades, a adequação ao pré-natal, a saúde mental das mães e as taxas de cesarianas e partos vaginais. Os resultados foram publicados em uma série de sete artigos na Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
Os dados revelam que os toques vaginais inadequados foram o tipo de violência mais frequentemente relatado, com 46% das mulheres mencionando essa prática. Além disso, 31% relataram negligência durante o atendimento, enquanto 22% enfrentaram abuso psicológico, 8% estigma e discriminação e 3% abuso físico. Essas estatísticas destacam a desigualdade no atendimento, com mulheres em condições socioeconômicas mais desfavoráveis apresentando maior vulnerabilidade.
Desigualdades no atendimento e suas implicações
O estudo identificou que mulheres com características demográficas específicas, como cor de pele preta e aquelas sem companheiro, enfrentaram maiores índices de estigmatização e discriminação. Da mesma forma, mulheres acima de 35 anos e com menos de 12 anos de escolaridade relataram mais casos de abuso físico e toques vaginais inadequados.
Mulheres que estavam dando à luz pela primeira vez e aquelas que passaram por um trabalho de parto prolongado também mostraram altas taxas de violência obstétrica. A pesquisa ressalta que as dificuldades enfrentadas durante o parto podem ser exacerbadas por condições de vulnerabilidade.
Aspectos do estudo e suas repercussões
O “Nascer no Brasil 2” foi realizado uma década após a primeira edição e visa entender o panorama da saúde obstétrica, considerando fatores como condições socioeconômicas, riscos gestacionais e a qualidade dos serviços de saúde. Os dados revelam que um em cada dez partos ocorre em adolescentes, enquanto o número dobra para mulheres com idade materna avançada, a partir de 35 anos. Segundo as coordenadoras do estudo, esses resultados indicam a necessidade de melhorar a qualificação dos serviços públicos de saúde.
As coordenadoras, Maria do Carmo Leal e Silvana Granado, destacam que as faixas etárias extremas da vida reprodutiva estão associadas a riscos aumentados de complicações obstétricas e perinatais. A gravidez na adolescência, por exemplo, requer atenção especial devido aos riscos elevados de óbito perinatal e parto prematuro.
Diferenças entre os setores público e privado
Os dados também mostram que, entre as mulheres atendidas no Sistema Único de Saúde (SUS), 80% tiveram acompanhante durante o parto, enquanto no setor privado esse índice foi de 98%. No entanto, o acesso a analgesia peridural foi significativamente menor no SUS, com apenas 1% das parturientes recebendo essa opção, em comparação com 30% no setor privado. As coordenadoras afirmam que a analgesia peridural pode ser uma ferramenta importante para aliviar a dor do parto e reduzir o número de cesarianas sem indicação clínica.
Altas taxas de cesarianas e suas consequências
As taxas de cesarianas continuam elevadas no estado, especialmente em municípios do interior (66%) e no setor privado (85%). As autoras da pesquisa lamentam que as mulheres atendidas pelo SUS têm quase dez vezes mais chances de entrar em trabalho de parto em comparação com aquelas que optam pelo sistema privado. Embora a maioria das parturientes do setor privado evolua para um parto vaginal, apenas 15% dos partos são vaginais, com a cesariana sem trabalho de parto sendo a prática predominante.
Os dados ressaltam que, apesar da cobertura quase universal do pré-natal no Rio de Janeiro (98%), a sua adequação não chega a 1%. Entre as gestantes entrevistadas, 79% iniciaram o acompanhamento médico até a 12ª semana de gestação, mas a maioria não recebeu as orientações necessárias sobre os riscos e benefícios dos tipos de parto, maternidade de referência e hábitos prejudiciais como o uso de álcool e tabagismo.
Conclusões sobre a saúde reprodutiva das mulheres
As autoras do estudo alertam que a baixa adequação ao pré-natal pode ser um dos fatores que contribuem para a elevada mortalidade materna, fetal e perinatal, além da incidência de sífilis congênita no estado, que é superior à média nacional. Esses dados sublinham a urgência de ações efetivas para melhorar a assistência à saúde das mulheres durante a gestação e o parto, visando garantir um atendimento digno e respeitoso a todas as mulheres.










