Setores como aço, automóveis e calçados enfrentam pressão; superávit vem das commodities

Tarifas americanas sobre produtos brasileiros impactam setores industriais, mas efeito na balança comercial é limitado devido ao peso reduzido dos EUA nas exportações nacionais.
O recente tarifaço aplicado pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros provoca um efeito restrito na balança comercial do Brasil, mas deixa setores industriais específicos sob forte pressão. Especialistas apontam que apenas 18% das exportações brasileiras para os EUA sofrem com as sobretaxas, limitando o impacto macroeconômico, porém causando perdas significativas à indústria nacional, sobretudo em segmentos como aço, alumínio, automóveis, máquinas e calçados.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o Brasil acumulou déficit comercial de US$ 1,5 bilhão no primeiro semestre de 2026 com os Estados Unidos, apesar da queda de 12,8% no volume total do comércio bilateral. As exportações brasileiras recuaram 13%, enquanto as importações americanas caíram 12,5% no mesmo período.
Para a economista Lia Valls, do Ibre/FGV, o impacto do tarifaço na balança comercial é limitado, pois a parcela das exportações brasileiras destinadas aos EUA caiu para cerca de 9,4%, enquanto o grande mercado permanece sendo a Ásia, especialmente a China. No entanto, setores industriais mais dependentes do mercado americano devem sentir os efeitos de forma mais aguda.
O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, reforça que o superávit comercial brasileiro depende essencialmente das commodities, que foram poupadas das sobretaxas. Ele destaca que o maior problema está no déficit de manufaturados, que gera emprego e valor agregado, e que as tarifas americanas abrem espaço para concorrentes internacionais, prejudicando a indústria nacional.
Além disso, a escalada tarifária americana ganhou conotação política, incorporando questões relacionadas ao Supremo Tribunal Federal (STF), regulamentação digital, Pix e políticas ambientais como justificativas para as sanções, segundo Lia Valls.
Diante disso, o governo brasileiro avalia a possibilidade de recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica, mas especialistas consideram que retaliações comerciais contra os EUA teriam efeitos limitados e poderiam reverter contra o Brasil. A alternativa mais viável é levar a questão à Organização Mundial do Comércio (OMC).
As tarifas americanas, baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, variam entre 25% e 50% para 24% dos produtos afetados, impactando principalmente aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira. Produtos como aeronaves, soja, café, carnes e suco de laranja ficaram fora das sobretaxas, preservando parte do agronegócio brasileiro.









