A cena teatral do Rio Grande do Norte vive um paradoxo: enquanto grupos como o Carmin conquistam prêmios importantes em todo o país, a falta de infraestrutura e apoio financeiro em Natal dificulta a manutenção de uma produção artística local vibrante. A atriz e diretora Quitéria Kelly, fundadora do Grupo Carmin, expõe os desafios enfrentados pelos artistas potiguares.
Quitéria Kelly, com uma trajetória de 27 anos dedicada ao teatro em Natal, busca incessantemente projetar o RN no cenário cultural brasileiro. Além de sua atuação no teatro, Quitéria também participou de produções da Globo, como as novelas Renascer e Mar do Sertão. “Hoje, me vejo como uma pessoa atuante no teatro potiguar, sempre com o objetivo de inserir o RN no cenário nacional”, resume a artista.
O Grupo Carmin, fundado por Quitéria Kelly e Titina Medeiros em 2007, surgiu com a proposta de valorizar a identidade local, criando dramaturgia original inspirada na cultura e na sociedade potiguar. “Queríamos escrever nossas próprias histórias, não apenas reproduzir clássicos”, explica Quitéria, ressaltando a importância de dar voz às mulheres no processo criativo.
Quitéria Kelly observa que, apesar do surgimento de novos grupos, a infraestrutura teatral em Natal não acompanhou esse crescimento. A diminuição dos espaços teatrais em funcionamento, como o Centro Experimental e o TCP, limita as oportunidades para novos artistas se apresentarem e experimentarem. Essa carência de espaços impacta diretamente a vitalidade da cena local.
O espetáculo “A Invenção do Nordeste”, do Grupo Carmin, alcançou reconhecimento nacional em 2019, sendo a peça brasileira mais premiada do ano, incluindo o Shell e o Cesgranrio. Quitéria relembra com emoção a noite da premiação do Cesgranrio, onde o Carmin concorreu com grandes produções e o nome do RN foi celebrado em um palco nacional. “Foi lindo ver o nome do RN estampado nos jornais do dia seguinte”, conta.
No entanto, o sucesso nacional contrasta com as dificuldades enfrentadas em Natal. A falta de acesso a espaços públicos adequados para ensaios, como o Teatro Alberto Maranhão, é um dos principais obstáculos. “Solicitamos o uso da sala de ensaio do Teatro Alberto Maranhão… e a única opção que nos foi oferecida foi o turno da manhã”, relata Quitéria, demonstrando a desconsideração com a trajetória do grupo. A Rampa Cultural, outro espaço da cidade, tem sido utilizada para festas privadas e shows, e não como palco para produções teatrais.
Quitéria Kelly critica a falta de editais de ocupação dos espaços culturais e questiona a prioridade dada à cultura na cidade. Segundo ela, a produção artística de Natal está “respirando por aparelhos”. Essa situação forçou o Grupo Carmin a estrear seu novo espetáculo, “Gente de Classe”, em Angra dos Reis, devido à falta de apoio, financiamento e espaço em Natal.
Apesar dos desafios, a cena teatral potiguar persiste, impulsionada pelo trabalho de grupos de teatro de rua e pela reabertura do Teatro Alberto Maranhão. O Carmin continua circulando com “A Invenção do Nordeste” e “Gente de Classe”, além de planejar ciclos de formação continuada em Natal. Quitéria conclui: “Fazer teatro nunca foi fácil, mas não precisava ser tão difícil assim”.
Fonte: http://agorarn.com.br










