Denúncias recicladas, pressão nas redes e articulação política reacendem debate sobre tentativa de enfraquecer o governador e conter avanço da terceira via
No final de dezembro, o presidente estadual do PT do Paraná, deputado Arilson Chiorato, foi às redes sociais alardear que havia uma “bomba”, a famosa bala de prata. A origem das denúncias seria um jornal do interior do Paraná. Arilson baseou-se em publicações desse veículo para demonstrar indignação, preocupação e, acima de tudo, cobrar apuração e um posicionamento do governador Ratinho Junior. Alegou ser inadmissível a suposta corrupção que teria ocorrido — ou estaria ocorrendo — afirmou que faria todos os encaminhamentos jurídicos possíveis, desde o Ministério Público, passando pela Assembleia Legislativa, até a Polícia Federal para “achar os culpados”.

Esse foi o pontapé inicial de um roteiro com capítulos aparentemente já pensados, organizados e com objetivo definido. Não muito claro no início, mas que, com o passar dos dias e o desenrolar dos capítulos, passou a revelar seu real propósito.
À primeira vista, parecia algo novo, recém-descoberto, ocorrido no final do ano. Um dos participantes das denúncias seria o secretário estadual das Cidades, Guto Silva, um dos cotados como possível escolha de Ratinho Junior para concorrer à sua sucessão para liderar o grupo que administra o Estado nas duas últimas gestões.
Esses roteiros criados pelas chamadas “luas pretas” apostam na pouca memória da população. Têm grande impacto inicial e, muitas vezes, esse este impacto é o único objetivo. Neste caso, porém, a intenção parecia ir um pouco além.
No capítulo seguinte, novos atores foram incluídos na trama, numa tentativa de dar verniz de algo mais real e atual. Entraram em cena a deputada Gleisi Hoffmann e o deputado estadual do Paraná Maurício, mais conhecido como Requião Filho. A leva-e-traz de Lula deu início à sua conhecida desafinada gritaria nas redes sociais. Requiãozinho foi levado por Arilson à sede da Polícia Federal, em Curitiba, para as já tradicionais selfies.
A ideia parecia clara: desgastar o governo estadual e um potencial candidato, o Guto. Eis que a denúncia ganha espaço na revista CartaCapital, publicação de circulação nacional e historicamente alinhada a Lula desde os tempos das greves e paralisações nos sindicatos do ABC.
O Brasil vive um momento de forte polarização, mas pesquisas já apontam crescente insatisfação com esse cenário. As pessoas estão cansadas dessa disputa permanente e começam a enxergar além dela. Pode-se chamar essa nova percepção de terceira via. E quem desponta com potencial de crescimento nesse campo, segundo levantamentos de diversos institutos, é Ratinho Junior — justamente o governador que aparece no centro das supostas denúncias da turma do PT no Paraná.
Curiosamente, trata-se de uma denúncia que já foi objeto de investigação, processos e até prisões. Ela foi deflagrada em meados de 2020, sob o nome de Operação Ductos. Tudo segue tramitando na Justiça, como determina o devido processo legal.
Mas essa terceira via incomoda o PT. A ideia, então, não seria inviabilizar nomes no Estado, mas desgastar Ratinho Junior em nível nacional. Resta a pergunta: o jornal de Maringá, de propriedade de um ex-candidato a vereador pelo PT, e o deputado Arilson seriam os autores intelectuais desse roteiro, recheado de capítulos? Há quem aposte que não. Observadores mais atentos afirmam haver a digital da principal cabeça pensante da esquerda: José Dirceu, ex-deputado, ex-condenado e virtual candidato a deputado federal por São Paulo em outubro.
Dirceu é conhecido como o “salvador da pátria” petista. Fazendo analogia a uma frase famosa de Galvão Bueno sobre a Seleção Brasileira — “Está em crise? Chama o Chile” —, no PT seria: “Está em crise? Chama o Zé Dirceu”.
Muitos afirmam que foi ele quem pensou, criou, escolheu os atores e definiu o momento da encenação. Dirceu sabe ler, interpretar e valorizar pesquisas, que vêm mostrando o potencial político do governador do Paraná.
Será que Dirceu e cia estão desenvolvendo novos roteiros?





