Um estudo recente publicado na revista Fish and Fisheries expõe uma disparidade salarial significativa na pesca artesanal brasileira: mulheres ganham, em média, 27,5% menos que seus colegas homens. A pesquisa também aponta para o acesso limitado a benefícios sociais cruciais, como o seguro-defeso, que oferece suporte financeiro durante os períodos de proibição da pesca.
Essa desigualdade se agrava nas regiões Norte e Nordeste do país, onde a presença feminina na pesca é mais expressiva. Nesses locais, a pesquisa aponta que até 85% das pescadoras sobrevivem com menos de US$ 150 mensais, um valor que mal cobre as necessidades básicas. A situação precária expõe a vulnerabilidade dessas trabalhadoras e a urgência de ações para mitigar essa disparidade.
O estudo, conduzido por pesquisadores de diversas universidades federais, utilizou dados de fontes como o Ministério da Pesca e Aquicultura e o IBGE para traçar um panorama completo das desigualdades de gênero na pesca artesanal. A análise demonstra que a invisibilidade do trabalho feminino contribui para a perpetuação da disparidade salarial.
Segundo José Amorim Reis-Filho, pesquisador da UFBA e autor líder do estudo, a diferença de renda está ligada à concentração das mulheres em atividades de processamento do pescado, posteriores à captura. “Quando envolvidas diretamente nas capturas, os recursos são menos valiosos que aqueles obtidos pelos homens, geralmente peixes de maior valor comercial”, explica Reis-Filho.
Além das questões econômicas, o estudo ressalta que a atuação das pescadoras é frequentemente negligenciada nas políticas públicas e estatísticas oficiais. Sua participação na coleta de mariscos em manguezais, uma prática mais sustentável, recebe menos atenção do que a pesca embarcada, majoritariamente masculina. Para Reis-Filho, é urgente retomar o monitoramento pesqueiro a nível nacional, descontinuado em 2011, para que se possa entender a fundo a realidade da atividade no país.
Os pesquisadores defendem a inclusão das pescadoras nos processos de gestão e decisão sobre a atividade, bem como o fortalecimento de sua participação na cadeia produtiva. Sugerem a criação de linhas de financiamento e capacitação específicas para mulheres, além do fortalecimento dos Centros Integrados de Pesca Artesanal (CIPAR). “Esses centros precisam ser expandidos, trazendo as mulheres como agentes transformadores e fornecendo condições estruturais e de recursos para elas saírem da condição de informalidade e precariedade na pesca”, conclui Reis-Filho.
Fonte: http://agorarn.com.br










