Obra de Gabriel Weber destaca os contrastes e desafios enfrentados por passageiros na rota entre Jacaré e Copacabana

Gabriel Weber lança livro que retrata a linha de ônibus 474, evidenciando o apartheid social no Rio de Janeiro.
A linha de ônibus 474: uma radiografia social do Rio de Janeiro
A linha de ônibus 474, que liga o Jacaré, na zona norte, a Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, é mais do que um simples meio de transporte; é um microcosmo das desigualdades sociais que permeiam a cidade. O autor Gabriel Weber, arquiteto e usuário frequente da linha, decidiu explorar essa realidade em seu livro “474 Jacaré/Copacabana”, publicado em outubro deste ano. A obra busca apresentar uma análise profunda e crua do que significa viajar nesse ônibus, que carrega uma fama de insegurança e caos.
O trajeto e suas peculiaridades
Durante a semana, a 474 é utilizada principalmente por trabalhadores que precisam se deslocar para o trabalho, enquanto nos fins de semana, jovens de comunidades e subúrbios lotam os assentos em direção às praias. Essa dualidade é um reflexo das diferentes realidades sociais que coexistem no Rio de Janeiro. Weber menciona que o trajeto é marcado por situações extremas, como arrastões e vandalismo, mas também por momentos de descontração, como surfistas que se equilibram nos tetos dos ônibus durante o verão.
A pesquisa que deu origem ao livro
A ideia do livro surgiu a partir da dissertação de mestrado de Weber, onde ele investigou as interações e experiências dos passageiros ao longo da linha. “Vi crianças cheirando cola, micro bailes funk e até garotas descolorindo os pelos”, descreve o autor, que retrata essas cenas com um olhar crítico e sensível. Para ele, o 474 é um anti-herói que, apesar de suas conotações negativas, oferece uma visão única do cotidiano carioca.
Reações e testemunhos dos usuários
Os relatos de passageiros como Josi Moreira, uma comerciante que utiliza a linha para ir à praia, revelam o medo constante enfrentado por quem depende do transporte público. “O medo é constante, até para nós que moramos em comunidades”, afirma Josi. A insegurança é uma preocupação compartilhada por muitos, que se sentem vulneráveis ao embarcar no ônibus.
Contexto histórico e cultural
O ônibus 474 existe desde a década de 1950, mas sua reputação negativa começou a se solidificar nos anos 1980. O livro de Weber não apresenta fotos dos eventos, mas sim ilustrações que capturam a essência do que acontece no transporte, afastando julgamentos e preconceitos. “O 474 do fim de semana não é o mesmo que circula de segunda a sexta”, explica o autor, ressaltando as diferentes experiências que se encontram ao longo da linha.
Conclusão: um retrato da luta por dignidade
Em sua obra, Weber também critica as fiscalizações que ocorrem ao longo do trajeto, apontando que muitas vezes os passageiros são alvo de preconceitos baseados em sua aparência. A ideia de que a praia é um espaço democrático é questionada, uma vez que os passageiros enfrentam experiências antidemocráticas para chegar a ela. “Cruzar os 22 quilômetros entre Jacaré e Copacabana é um ato de determinação”, conclui o autor, enfatizando a luta diária por dignidade e respeito no transporte público carioca.
O livro, que custa R$ 56 e tem 128 páginas, é uma leitura essencial para quem deseja compreender as complexidades sociais do Rio de Janeiro através do olhar de seus habitantes.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Folhapress










