Espetáculo ‘Escute as Feras’ propõe jornada filosófica a partir de ataque de urso


A peça transforma um relato de sobrevivência em uma reflexão sobre a condição humana e autoconhecimento

Espetáculo 'Escute as Feras' propõe jornada filosófica a partir de ataque de urso
Estreia do espetáculo 'Escute as Feras'. Foto: Ariela Bueno / Divulgação

A peça 'Escute as Feras' transforma um ataque de urso em uma reflexão profunda sobre a condição humana.

‘Escute as Feras’ e a transformação do trauma em arte

O espetáculo ‘Escute as Feras’ estreia com uma proposta que vai além do entretenimento; ele transforma um ataque de urso em uma jornada filosófica profunda. A partir do relato autobiográfico da antropóloga Nastassja Martin, que sobreviveu a um ataque na Sibéria, a peça, protagonizada por Maria Manoella, convida o público a refletir sobre a condição humana no contexto do Antropoceno.

A experiência sensorial e filosófica

A montagem, concebida pela diretora Mika Lins e pela filósofa Fernanda Diamant, não se limita a narrar uma história de sobrevivência, mas busca criar uma experiência sensorial. A dramaturgia sonora de Lúcio Maia e a iluminação de Caetano Vilela formam um microclima que transporta os espectadores para uma realidade onde os limites entre o humano e o animal se dissolvem. A música ao vivo e a ambientação visual são elementos que materializam o inconsciente na narrativa, proporcionando uma imersão total.

A jornada de autoconhecimento

A personagem de Maria Manoella não é apenas uma sobrevivente, mas alguém que se transforma em miêdka, um ser “meio a meio” entre humano e urso. Este conceito, oriundo da cultura dos Evens, revela a luta interna entre a razão e o instinto, questionando as estruturas sociais que definem a identidade feminina. O espetáculo se propõe, assim, a ser uma reescrita radical da própria existência, onde a protagonista não se conforma às categorias pré-estabelecidas.

O olhar feminino sobre o trauma

A escolha de uma equipe majoritariamente feminina para a criação do espetáculo confere a ele uma perspectiva única sobre o trauma. A violência sofrida pela protagonista é transformada em um ponto de partida para uma rebelião ontológica. A peça convida o público a refletir sobre as feras que habitam dentro de nós e a possibilidade de encontrar um novo modo de ser a partir dessas experiências. O trabalho conjunto entre as criadoras enriquece a narrativa, fazendo com que as experiências pessoais se entrelacem com questões universais.

A encenação e sua singularidade

No palco, a encenação é marcada por uma estética que desafia o realismo. O cenário, figurino e iluminação se combinam para criar um espaço onírico, onde cada elemento tem um papel crucial na construção da narrativa. A cabeça de urso, que aparece na peça, simboliza não apenas a ferocidade da natureza, mas também a intersecção entre o humano e o selvagem. Essa hibridização é um dos aspectos mais interessantes do espetáculo, pois provoca uma reflexão sobre a identidade e a condição humana.

Conclusão: escutando as feras

‘Escute as Feras’ é mais do que um espetáculo; é um convite a uma escavação interior. Ao final, o público é instigado a ouvir as feras que habitam em si e a encontrar novas possibilidades de existência. A peça, que será apresentada até 11 de dezembro, promete deixar uma marca indelével na memória de quem a assiste, refletindo sobre as complexidades da vida contemporânea e a luta por autoconhecimento e liberdade.

Teatro Estúdio – rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central. Qua. e qui., 20h. Até 11/12. Duração: 80 minutos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Ariela Bueno / Divulgação


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