Sandra Pereira, uma dona de casa do Espírito Santo, viveu por quase um ano nas ruas, um período que ela descreve como um lugar “onde não há sentimentos, só tristeza”. Marcada pela dependência química, noites em calçadas e a solidão das praças, ela personifica a dura realidade enfrentada por milhares de brasileiros.
Hoje, Sandra representa uma história de esperança. Longe das drogas, com um lar e o apoio da família reconstruída, ela é a prova de que a assistência social pode ser um divisor de águas para quem perdeu tudo. Sua trajetória é um exemplo da importância do suporte contínuo para superar a vulnerabilidade.
A história de Sandra se cruza com um cenário alarmante: o aumento da população em situação de rua no Brasil. Em março de 2025, o Cadastro Único registrou 335.151 pessoas nessa condição, um crescimento significativo em relação aos 327.925 contabilizados em dezembro de 2024. No Espírito Santo, a estimativa do Ministério Público Estadual aponta para cerca de 6,9 mil pessoas vivendo nas ruas, sendo 2.140 somente na Grande Vitória.
Essa complexa questão é alimentada por diversos fatores, como dependência química, conflitos familiares, desemprego e problemas de saúde mental. Sandra se perdeu nessa teia de vulnerabilidades aos 25 anos, até encontrar no trabalho persistente do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e de outras instituições o apoio necessário para recomeçar.
A perda da guarda dos filhos foi um momento crucial para Sandra, levando-a a uma espiral de recaídas e internações. “Na hora que dava fome, eu bebia para não comer”, relembra. No entanto, a descoberta de uma gravidez a motivou a abandonar o álcool: “Ninguém acreditava que eu tinha parado. Mas a gravidez me fez ter forças”.
O Creas desempenhou um papel fundamental nesse processo, oferecendo encaminhamentos, acompanhamento psicológico e psiquiátrico, transporte para consultas e apoio em procedimentos médicos. Atualmente, aos 47 anos, Sandra vive com o marido, recuperou a guarda dos filhos, não consome álcool e mantém acompanhamento médico. “A rua não é lugar de morar. Procurem ajuda, porque tem saída. É difícil, mas com força e fé, a gente consegue”, afirma com convicção.
O aumento da população em situação de rua no Brasil é um problema crescente. Em dezembro de 2013, o Cadastro Único registrava 22,9 mil pessoas nessa condição. Em março de 2025, esse número saltou para 335.151, um aumento de 14,6 vezes. Os dados são do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da UFMG.
Segundo a assistente social Vanderleia Coser, que acompanha Sandra há anos, a persistência da equipe do Creas foi essencial para a recuperação. “Eu mesma já resgatei Sandra da rua e levei para casa. A gente nunca desistiu. Sempre fazíamos de tudo para acompanhar… Hoje, ela está restaurada, com apoio da família e da igreja”.
O trabalho do Creas abrange diversas ações, desde a abordagem nas ruas até a oferta de banho e alimentação, além do encaminhamento para tratamento. No Espírito Santo, a rede socioassistencial conta com 83 Creas e 161 Centros de Referência de Assistência Social (Cras), que atuam na prevenção e no fortalecimento de vínculos.
“O nosso trabalho vai muito além de encaminhar para serviços. É ouvir, entender a história e criar um plano para que essa pessoa tenha chances reais de reconstruir a vida. Muitas chegam sem documentos, sem contatos e sem confiança em ninguém. É preciso persistência e respeito para conquistar esse vínculo”, explica Vanderleia Coser, destacando a importância de um olhar individualizado para cada caso.





