Após décadas de uma política rigorosa de controle populacional, a China enfrenta agora o desafio de reverter o declínio acentuado nas taxas de natalidade. O governo, que antes impunha multas e esterilizações, agora oferece incentivos financeiros para encorajar os casais a terem mais filhos. A mudança radical na abordagem reflete a crescente preocupação com o envelhecimento da população e a diminuição da força de trabalho.
Zane Li, de 25 anos, relembra o impacto devastador da política do filho único em sua família. Seus pais foram multados em 100.000 yuans (cerca de R$ 75 mil) pelo nascimento de sua irmã, uma quantia que quase triplicava a renda anual da família. “Mal conseguíamos sobreviver”, conta Li, que hoje não planeja ter filhos, uma postura cada vez mais comum entre os jovens chineses.
Na tentativa de impulsionar a natalidade, o governo chinês anunciou um auxílio anual de 3.600 yuans (R$2.700) para cada filho até os três anos de idade. A medida, com efeito retroativo a 1º de janeiro, visa aliviar o fardo financeiro da criação de filhos. No entanto, muitos consideram o valor insuficiente diante dos altos custos de vida no país.
“O custo de criar um filho é enorme, e 3.600 yuans por ano é uma gota no oceano”, critica Li, que possui um empréstimo estudantil para cursar mestrado em Pequim. Um estudo recente aponta que criar um filho até os 18 anos na China custa, em média, 538.000 yuans (R$408 mil), um valor que ultrapassa seis vezes o PIB per capita.
Embora o novo auxílio seja um passo na direção certa, especialistas questionam sua capacidade de reverter a tendência de queda na natalidade. Emma Zang, demógrafa da Universidade Yale, ressalta que políticas semelhantes falharam em outros países do Leste Asiático, como Japão e Coreia do Sul. “Não é apenas sobre o custo”, afirma Zang, destacando a insegurança no emprego e a pressão social como fatores que contribuem para a relutância dos jovens em formar famílias.
A transição das multas aos auxílios é vista com ceticismo por muitos jovens chineses que vivenciaram as duras penalidades da política do filho único. Usuários de redes sociais compartilham fotos de recibos antigos que comprovam as multas pagas por seus pais. Gao, que cresceu em uma região rural, lembra que suas irmãs foram enviadas para morar com a avó para que seus pais pudessem tentar ter um filho homem.
O desemprego crescente entre os jovens e a intensa competição por empregos também contribuem para o pessimismo em relação ao futuro. A expressão “involução” resume a sensação de que o esforço incansável produz retornos cada vez menores em uma sociedade competitiva. Diante desse cenário, muitos optam por não seguir as expectativas tradicionais de casamento e filhos.
June Zhao, de 29 anos, que cresceu sob intensa pressão para se destacar nos estudos, afirma que essa experiência teve um papel importante em sua decisão de não ter filhos. “O custo é simplesmente muito alto e o retorno muito baixo”, diz Zhao, que se considera sortuda por ter um trabalho com horários flexíveis.
Além dos custos financeiros e da pressão social, o desequilíbrio de gênero na criação dos filhos também é um fator a ser considerado. Zhao observa que sua mãe arcou com a maior parte do fardo de sua criação, conciliando trabalho e cuidados com a filha. “Vi em primeira mão como foi difícil para minha mãe me criar”, relata.
Diante desse cenário complexo, especialistas defendem que o governo precisa abordar as barreiras reais enfrentadas pelas mulheres para aumentar a taxa de fertilidade. Medidas como licença-paternidade, proteção no ambiente de trabalho e empregos flexíveis são consideradas essenciais para apoiar as famílias e promover a igualdade de gênero. “O governo quer mais bebês, mas a sociedade não está estruturada para apoiar as famílias”, conclui Zang.
Fonte: http://www.cnnbrasil.com.br










