Celso Amorim critica a iniciativa americana por potencialmente enfraquecer a ONU e destaca a ausência de diálogo na proposta

Brasil avalia não aceitar convite dos EUA para integrar o Conselho de Paz devido à proposta confusa e à possível revogação da ONU.
Proposta do conselho de paz abre debate internacional sobre legitimidade e influência
A criação do conselho de paz proposto pelo presidente Donald Trump, voltado inicialmente para a reconstrução da Faixa de Gaza, tem gerado controvérsia internacional. O Brasil, por meio de seu assessor internacional Celso Amorim, criticou a iniciativa logo no início, classificando a proposta como confusa e preocupante para a ordem internacional vigente. O documento da Casa Branca, entregue em 22 de janeiro de 2026, surpreendeu ao não mencionar diretamente Gaza, ampliando sua atuação para “qualquer conflito”, o que causa dúvidas sobre o real propósito e alcance do conselho.
Amorim destacou que o projeto representa uma possível revogação da autoridade da ONU na área de paz e segurança, questionando a legitimidade do órgão que, na prática, seria liderado por um país e não por um consenso internacional. Essa centralização de poder e o caráter inflexível da proposta, que não permite negociações ou emendas, tornam a adesão brasileira pouco provável, segundo o assessor.
Reação global: adesões, recusas e incertezas entre países convidados
A iniciativa americana contou com diferentes reações pelo mundo. No Oriente Médio, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Jordânia e Catar já anunciaram a intenção de integrar o conselho. Na Ásia, nações como Paquistão, Indonésia, Vietnã, Uzbequistão e Cazaquistão também sinalizaram participação. Entretanto, na Europa, a postura é mais cautelosa: França, Noruega e Suécia recusaram o convite, enquanto Itália considerou a adesão problemática. Kosovo, Belarus, Armênia e Azerbaijão se manifestaram favoravelmente, e na África, Marrocos e Egito demonstraram interesse.
Alguns membros da Otan confirmaram presença, como Hungria e Turquia, enquanto outros evitaram a participação no formato atual. A China rejeitou o convite, reafirmando seu compromisso com o sistema internacional centrado na ONU. A Rússia revelou interesse e ofereceu um aporte financeiro significativo, condicionado ao descongelamento de seus ativos nos Estados Unidos.
Brasil avalia cautelosamente papel no conselho considerando interesses regionais
Celso Amorim ressaltou que o Brasil vê o Oriente Médio como uma região de grande importância estratégica, mas que a entrada em qualquer iniciativa desse tipo depende de análise criteriosa. Ele enfatizou a necessidade de diálogo com os próprios palestinos e países árabes para entender suas posições diante do conselho de paz. Além disso, Amorim indicou que a falta de abertura para negociações na proposta americana dificulta a aceitação brasileira.
Essa postura reflete uma preocupação com a preservação da soberania dos organismos multilaterais consagrados e a manutenção do equilíbrio nas relações internacionais. O Brasil demonstra prudência ao não aceitar pressões para uma adesão automática.
Estrutura e funcionamento do conselho segundo a proposta americana
O Conselho de Paz criado por Donald Trump funcionaria como um órgão internacional dedicado à promoção da estabilidade e da paz em regiões afetadas por conflitos. Apesar do foco inicial na Faixa de Gaza, a carta constitutiva permite atuação em outros conflitos globais, ampliando sua abrangência.
Trump se autodeclarou líder do conselho, com autoridade para convidar países, definir membros e tomar decisões estratégicas. A proposta sugere que nações interessadas em assentos permanentes façam contribuições financeiras elevadas, da ordem de US$ 1 bilhão cada, buscando garantir recursos para ações de reconstrução e manutenção da paz.
O modelo adotado, no entanto, é rígido, não permitindo alterações no texto original, o que gerou críticas quanto à falta de transparência e diálogo com os envolvidos.
Implicações geopolíticas e desafios para a ordem internacional
A iniciativa do Conselho de Paz traz à tona tensões existentes na governança global, principalmente no que tange à influência da ONU e o papel de potências como os Estados Unidos e Rússia. A proposta de criar um órgão paralelo que possa agir em conflitos, com um líder fixo e prerrogativas amplas, pode fragmentar a cooperação internacional e gerar disputas de soberania.
Além disso, a divisão de opiniões entre países tradicionais da comunidade internacional, aliados e adversários, reflete a complexidade atual da política mundial. A disputa por legitimidade e controle das intervenções em regiões conflituosas reforça a relevância do respeito às normas multilaterais e ao diálogo diplomático.
O Brasil, alinhado a esses princípios, opta por cautela e busca preservar sua atuação coerente na arena global, estudando as consequências e a viabilidade de participar de iniciativas que possam alterar o equilíbrio de poder nas instituições existentes.
Fonte: noticias.uol.com.br
Fonte: Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula










