Uma nova onda de concessões rodoviárias no Brasil, impulsionada pelo maior número de leilões em quase duas décadas, enfrenta um desafio crucial: a escassez de mão de obra especializada. O ritmo acelerado dos projetos, contrastando com a desaceleração na formação de profissionais, tem forçado as concessionárias a adotarem estratégias inovadoras para mitigar o problema.
Entre as medidas implementadas, destacam-se investimentos em tecnologia de ponta, além de programas abrangentes de capacitação e retenção de talentos. A demanda aquecida por profissionais qualificados reflete um cenário de crescimento no setor, mas também expõe a necessidade urgente de adequação na formação de engenheiros e técnicos.
O contraste com o período entre 2015 e 2018, marcado pela Operação Lava Jato e crise fiscal, é notável. Naquela época, apenas dois leilões de rodovias federais foram realizados, seguidos por modestos sete leilões entre 2019 e 2022. Em contrapartida, o período de 2023 a 2025 testemunhou um salto para 16 leilões, com a ambiciosa meta do governo federal de alcançar 35 concessões até o fim do mandato.
Ronei Glanzmann, CEO da MoveInfra, aponta que essa aceleração é resultado de um amadurecimento jurídico e econômico no setor de concessões. Contudo, ele alerta para uma “dor de crescimento”, evidenciada pelo descompasso entre a oferta e a procura por profissionais qualificados. “Temos financiamento disponível, bons contratos e leilões competitivos, um atrás do outro, mas está na hora de executar os projetos e há um gargalo de mão de obra”, afirma Glanzmann.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima um déficit de 75 mil engenheiros no Brasil. Roberto Paolini, diretor executivo da Arteris, destaca a migração de jovens para áreas como serviços e tecnologia como um fator que contribui para a menor procura pela engenharia. “As novas gerações migraram muito para serviços, tecnologia e inteligência artificial, que se tornaram mais atrativas. No entanto, ainda precisamos muito dos engenheiros ‘hard’, aqueles que projetam, constroem e executam”, afirma.
Diante desse cenário, as empresas do setor buscam soluções criativas. A EcoRodovias, por exemplo, aposta na regionalidade para atrair e reter talentos, buscando profissionais em faculdades próximas aos locais de atuação. A Motiva (ex-CCR) investe em parcerias com universidades e programas de mentoria, buscando o “upskilling” de seus funcionários.
A Arteris, por sua vez, foca na capacitação e no clima organizacional para fidelizar seus engenheiros, buscando absorver profissionais após grandes entregas. Paolini adverte, contudo, que a escassez de mão de obra eleva salários e pode levar a promoções aceleradas, comprometendo a qualidade da execução dos projetos.










