Viagem, favores e silêncio conveniente

A revelação publicada por O Estado de S. Paulo é simples — e devastadora: Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, admitiu a interlocutores que teve voo e hotel pagos pelo empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, personagem central do escândalo bilionário que envolve fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social. A explicação? Visita a uma fábrica de cannabis medicinal em Portugal. Nada além disso. Mas a pergunta é inevitável: desde quando empresário investigado por esquema contra aposentados banca viagem internacional para o filho do presidente por mera cordialidade? Não é crime aceitar passagem. O problema é a promiscuidade política que isso simboliza. É o tipo de proximidade que corrói qualquer discurso moral. Especialmente quando parte de um grupo político que passou anos discursando sobre ética, perseguição e seletividade judicial. A conta pode até ter sido “apenas” passagem e hotel. Mas o custo político é bem maior. Porque no Brasil, quando empresário enrolado paga viagem para filho de presidente, não é amizade. É influência. E influência nunca viaja de graça.
MBL : Rebelde de gabinete

O MBL gosta de vender a fantasia do outsider indignado. Jovens contra privilégios, fiscais do dinheiro público, paladinos de uma política limpa que juram não depender das engrenagens tradicionais. O problema é quando a própria trajetória implode o personagem. Luis Felipe Martins França, que passou a afirmar que será candidato ao governo pelo Missão — partido nascido do MBL — constrói sua pré-campanha exatamente sobre essa narrativa de ruptura. O detalhe é que sua biografia conta outra história. Há registro de passagem por cargo comissionado de secretário parlamentar em 2016, encerrada rapidamente após exoneração, episódio pouco compatível com a figura do fiscal implacável que hoje ocupa as redes. Soma-se a isso uma trajetória de circulação por ambientes e figuras tradicionais da política paranaense — o mesmo sistema que agora serve de alvo discursivo. Nada ilegal. Apenas revelador. O antissistema que nasce em gabinete, depende de padrinhos e depois descobre a indignação como plataforma eleitoral não é ruptura — é reposicionamento. Se a candidatura vier, não será a de um insurgente contra a máquina, mas a de alguém que passou por ela e agora tenta convencer o eleitor de que nunca esteve lá. Porque marketing cria personagem. Biografia cria realidade.
Entre os nomes do PSD, Ratinho é o que reúne mais condições reais

O jornal O Estado de São Paulo traz hoje em sua edição matéria em que demostra os pontos fracos e fortes dos pré-candidatos do Partido Social Democrático à Presidência. Deixa claro que o partido quer sair da posição de coadjuvante em 2026. O presidente da legenda, Gilberto Kassab, colocou três governadores no radar: Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. A reportagem apresenta os três como alternativas viáveis, mas uma leitura política mais atenta mostra que os nomes não partem do mesmo ponto. Caiado tem identidade ideológica clara e discurso firme, mas enfrenta dificuldades para ampliar seu alcance nacional além de um eleitorado mais consolidado no Centro-Oeste e na direita tradicional. Eduardo Leite, por sua vez, simboliza moderação e diálogo, porém ainda não conseguiu transformar essa imagem em musculatura eleitoral consistente fora do Rio Grande do Sul. Já Ratinho Júnior carrega um ativo estratégico que pesa em disputa presidencial: gestão bem avaliada, discurso pragmático e trânsito tanto no campo liberal quanto no conservador, sem acumular níveis elevados de rejeição. Em um cenário nacional cada vez mais polarizado, essa combinação pode ser decisiva. O que o texto do Estadão evidencia, ainda que de forma indireta, é que o PSD terá de escolher entre lançar um nome para marcar posição ou apostar em alguém com real capacidade de crescimento. Se a decisão for pela competitividade, o governador do Paraná larga na frente. Em eleição fragmentada, vence quem consegue ampliar. E, hoje, dentro do PSD, Ratinho é quem mais reúne condições de ampliar.
Plágio na bagagem, deboche no plenário

A ironia disparada por Gilmar Mendes contra Sergio Moro no plenário do Supremo não foi apenas uma piada de ocasião. Foi um recado com endereço e memória. Ao sugerir que o senador talvez precisasse de ghostwriters e ironizar sua capacidade de escrever a palavra “tigela”, o ministro trouxe à superfície uma percepção que já circula há tempos nos bastidores de Brasília: o desgaste de uma biografia que já foi tratada como inquestionável. A provocação atinge um ponto sensível. Moro construiu sua imagem pública ancorada no rigor técnico e na autoridade intelectual. E é justamente essa base que Gilmar escolheu tensionar. O sarcasmo ganha peso quando se recorda um episódio concreto e documentado. Em 2020, Moro admitiu que um artigo jurídico publicado com sua assinatura continha trechos copiados de outro autor sem a devida citação — em outras palavras, plágio. A admissão veio após a denúncia pública, e a tentativa posterior foi dividir a responsabilidade com a coautora do trabalho. Ainda assim, o fato permaneceu registrado: houve cópia sem crédito. Nesse cenário, a ironia de Gilmar deixa de soar gratuita e passa a funcionar como lembrança incômoda. O ex-juiz que ascendeu à política sob o discurso do rigor viu sua trajetória marcada por um episódio que contraria exatamente essa narrativa. Em Brasília, onde memória política raramente prescreve, o resultado é previsível. A fala no Supremo não foi apenas deboche — foi a exploração de uma vulnerabilidade conhecida. No plenário, risos. Nos bastidores, compreensão imediata do alvo.
Barulho de quem teme

A reação de parlamentares lulistas à aprovação da quebra de sigilos de Lulinha na CPMI foi menos política e mais reveladora. Incapazes de aceitar a derrota no voto, partiram para o tumulto e para o confronto físico, oferecendo ao país um espetáculo que mistura nervosismo, intolerância e constrangimento institucional. Em tese, quem confia na própria versão dos fatos deveria defender investigação ampla. Mas a cena desta manhã transmitiu o oposto: um grupo disposto a tensionar o ambiente e constranger o processo justamente quando ele começa a produzir instrumentos concretos de apuração. O excesso de indignação não parece fruto apenas de divergência política. Soa como reflexo do receio sobre o que a quebra de sigilos pode expor. Quando a investigação avança e a reação é o barulho, a leitura inevitável é de preocupação. O lulismo, que frequentemente reivindica para si o discurso institucional, protagonizou um episódio que caminha na direção inversa: tentou transformar um mecanismo legítimo de fiscalização em motivo de confronto. Não é defesa política — é reação defensiva. No fim, a imagem que fica é simples e incômoda: se a apuração provoca tamanho descontrole, talvez o problema não esteja na CPMI, mas no que ela pode revelar.
Bolsonaro não quer Cristina
O vazamento das anotações de Flávio Bolsonaro sobre o cenário eleitoral de 2026 no Paraná funcionou como um balde de água fria em narrativas que vinham sendo construídas nos bastidores. O registro é direto: ao lado do nome de Filipe Barros, a orientação é inequívoca — “Só apoiamos ele”. Em política, poucas frases têm efeito tão definitivo. A escolha está feita, o palanque está delimitado e o recado foi dado sem rodeios. Na outra ponta, Cristina Graeml surge citada como fator que “atrapalharia Filipe”. Não como alternativa, nem como possibilidade complementar, mas como obstáculo. Uma distinção que fala por si. O episódio desmonta a estratégia ensaiada na eleição para prefeito de Curitiba, quando uma ligação telefônica de Jair Bolsonaro foi utilizada para sustentar a imagem de proximidade e apoio político. Funcionou naquele momento como narrativa. O problema é que narrativa não resiste quando confrontada por registros de bastidor. Com as anotações agora públicas, fica mais difícil repetir a tentativa de vender um apoio que, ao que tudo indica, nunca existiu de fato. Se antes era possível alimentar a dúvida, hoje a própria escrita tratou de esclarecê-la. E, diante disso, qualquer nova tentativa de reivindicar esse espaço corre o risco de não soar como articulação política — mas como insistência em uma versão que os bastidores já trataram de negar.
Ricochete

A política tem dessas ironias que dispensam comentário — mas rendem coluna. O episódio envolvendo Rafael Azevedo Perich é um bom exemplo. Apresentado como voz vigilante ao denunciar uma suposta situação de desvio de função na Prefeitura de Curitiba, ele acabou exposto por um detalhe nada trivial: o crachá que carrega não é exatamente o que diz portar. Segundo sua conta no Instagram, se apresenta como integrante do gabinete do deputado Requião Filho, mas consta, de fato – conforme dados da ALEP referente a janeiro de 2026, como servidor da estrutura administrativa da Assembleia Legislativa. A diferença pode parecer burocrática, mas politicamente é enorme. Afinal, quem se coloca na linha de frente de denúncias costuma ser cobrado pelo mesmo rigor que exige dos outros. O episódio produz um efeito clássico da política local: o denunciante vira pauta. Não pelo conteúdo da denúncia em si, mas pela coerência entre discurso e posição funcional. Em tempos de redes sociais e militância permanente, a fronteira entre atuação política, institucional e narrativa pessoal é cada vez mais sensível. No fim, o chamado “tiro certeiro” acabou com ricochete. E deixou no ar a pergunta que Brasília, Curitiba e qualquer praça política conhecem bem: quem fiscaliza o fiscal quando o discurso não bate com o cargo?
Lulinha na Mira

Reportagem do site Metrópoles revelou que ex-dirigentes do INSS fecharam delação premiada e colocaram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no circuito de relatos que envolvem interlocuções e relações com investigados no escândalo bilionário que atingiu aposentados e pensionistas. O episódio reacende um roteiro já conhecido: negócios privados orbitando estruturas públicas e o peso inevitável do sobrenome presidencial pairando sobre a narrativa. Delação não condena, mas ilumina bastidores — e, quando a luz alcança o entorno familiar do poder, o desgaste político é automático. No Planalto, a preocupação não é apenas jurídica, mas simbólica. A repetição de menções a Lulinha em investigações reforça a dificuldade crônica do lulismo de separar projeto político e núcleo familiar. Cada novo capítulo reabre cicatrizes antigas e mina o discurso de normalidade. Mais do que o desfecho do caso, o problema é o enredo que insiste em se repetir. E, para um governo que tenta vender estabilidade, ter o filho do presidente novamente citado em delação é tudo, menos detalhe.
Fogo amigo

A pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro esbarrou no primeiro ruído relevante — e ele veio do próprio núcleo familiar. Ao comentar a atuação de Eduardo Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia foi cirúrgico: “Calado, vai ajudar muito mais o irmão do que abrindo a boca para falar asneira.” A crítica surge após Eduardo cobrar publicamente Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira por maior engajamento na construção da candidatura do senador. A resposta veio rápida. Nikolas negou qualquer “amnésia”, relativizou a divergência e preferiu mirar no discurso de unidade, ainda que o estrago já estivesse feito. Nos bastidores, a fala de Malafaia escancara o incômodo de aliados com a postura do ex-deputado, hoje nos Estados Unidos e politicamente enfraquecido após perder o mandato por faltas reiteradas. Distante do front e sem mandato, Eduardo passou a produzir mais ruído do que mobilização. Para Flávio, que tenta vender a imagem de coesão e amplitude, o episódio funciona como alerta precoce: a maior ameaça à narrativa de unidade pode não estar na oposição — mas dentro do próprio sobrenome.
PL ensaia Bolsonaro versão controlada

O jantar promovido pela Esfera Brasil, na noite de ontem, na Faria Lima virou vitrine de um movimento político calculado do PL. Diante de empresários, Valdemar Costa Neto tratou de posicionar Flávio Bolsonaro como alternativa mais previsível ao mercado, resumindo a estratégia em uma frase que repercutiu entre os presentes: “Flávio não tem os destemperos do pai.” Ao sugerir que o senador poderia inclusive fazer um governo melhor que o de Jair Bolsonaro, Valdemar deixou implícito o diagnóstico interno do partido — o capital eleitoral do sobrenome segue intacto, mas o desgaste político do estilo precisa ser administrado. Nos bastidores, o gesto revelou o início de uma operação de reposicionamento: manter a força do bolsonarismo enquanto se testa uma versão mais controlada e palatável ao mercado. Mais do que elogio, o jantar funcionou como termômetro de viabilidade.