Após viver à margem da sociedade, Marconi Alves da Cruz, de 75 anos, finalmente teve sua existência reconhecida pelo Estado. Graças a um mutirão da Defensoria Pública de Roraima (DPE-RR), o idoso, que vivia em situação de rua em Caroebe, obteve sua certidão de nascimento e, em seguida, o Registro Geral (RG), documentos essenciais para o exercício da cidadania.
A história de Marconi ganhou um novo capítulo graças à solidariedade de Kelly Silva, moradora local que o conhecia de vista. Ao perceber a fragilidade do idoso, que havia perdido a capacidade de trabalhar e vivia em condições precárias, Kelly decidiu oferecer ajuda diária, levando-lhe refeições e buscando atendimento médico.
“Ele era um senhor bem saudável, e eu o reencontrei totalmente desnutrido, os olhos fundos, parecia que não tinha brilho, já quase sem vida mesmo”, relatou Kelly. A moradora, então, mobilizou-se para buscar documentos que comprovassem a existência de Marconi, mas sem sucesso. “Era como se não existisse no mundo”, lamentou.
A oportunidade de mudar essa realidade surgiu durante a passagem da Carreta dos Direitos, projeto da Defensoria Pública, por Caroebe. Kelly levou Marconi para ser atendido na unidade móvel, onde a assessora jurídica Gabrielle Corrêa Teixeira iniciou o processo de registro tardio.
Gabrielle explicou que o caso de Marconi era complexo, pois não havia nenhum registro do idoso em cartórios das cidades onde ele teria nascido ou vivido. “Trabalhamos com a hipótese de registro tardio, uma pessoa que talvez nunca tivesse tido certidão de nascimento”, afirmou a assessora, que persistiu até conseguir a documentação para Marconi.
O Mutirão Previdenciário, que viabilizou o caso de Marconi, ofereceu diversos serviços gratuitos à população, como emissão de documentos e orientações sobre benefícios previdenciários. A iniciativa demonstra o compromisso da Defensoria Pública em garantir o acesso à cidadania para pessoas em situação de vulnerabilidade.
A Carreta dos Direitos, idealizada em 2014, leva serviços de cidadania e assistência jurídica a áreas distantes do centro de Roraima. O coordenador da Defensoria Itinerante, Régis Braga, destacou que a iniciativa já realizou mais de 4.800 atendimentos em 2025, incluindo ações de registro civil tardio.
Com os documentos em mãos, Marconi agora tem acesso a serviços básicos de saúde e pode solicitar aposentadoria. Kelly, que continua a apoiá-lo, expressou sua alegria ao ver o idoso se sentir reconhecido. “Ele me disse que agora se sente gente, porque viver sem documento é como não existir”, concluiu.
A conquista de Marconi representa um novo começo, com a esperança de uma vida mais digna e autônoma. Sua história é um exemplo de como a solidariedade e o acesso à justiça podem transformar a vida de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Fonte: http://www.folhabv.com.br










