Um olhar crítico sobre a história da ocupação de Dourados e o ensino da história indígena em escolas da região revela uma narrativa complexa de violência e resistência. A análise, fruto da experiência em sala de aula do professor indígena terena Kleber Gomes, expõe a urgência de abordar a história dos povos originários, em especial Guarani e Kaiowá, no contexto do Mato Grosso do Sul. O artigo lança luz sobre a marginalização da história indígena no currículo escolar e suas consequências.
O ponto de partida é a constatação de que a narrativa tradicional da “Marcha para o Oeste” e da criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND) frequentemente ignora o impacto devastador sobre as populações indígenas. Gomes propõe uma análise em três momentos para desmistificar essa história, revelando as injustiças cometidas contra os povos originários. A intenção é promover um entendimento mais profundo da realidade enfrentada pelos Guarani e Kaiowá.
O primeiro momento examina a falácia dos “vazios demográficos” propagada no final do século XIX. Territórios ancestrais dos Guarani e Kaiowá foram considerados desocupados para justificar a exploração de recursos como a erva-mate. A Companhia Matte Larangeira, sob concessão governamental, impôs um regime de trabalho análogo à escravidão, marcando o início dos conflitos fundiários.
O segundo momento aborda a criação das reservas indígenas no início do século XX. Essas reservas, distantes das terras tradicionais e sem condições de subsistência, serviram para confinar os indígenas e liberar terras para a colonização. “As reservas eram áreas distantes dos territórios originais dos Guarani e dos Kaiowá e sem nenhuma ligação com as terras ancestrais desses povos”, enfatiza Gomes. O autor destaca que a situação fundiária precária da Reserva Indígena de Dourados (RID), superpopulosa e com recursos limitados, é um reflexo direto dessas políticas do passado.
Por fim, o terceiro momento analisa a “Marcha para o Oeste” e a criação da CAND na Era Vargas. A política desenvolvimentista incentivou a ocupação da região sem considerar os direitos dos povos indígenas, resultando em violência e deslocamentos forçados. A omissão das comunidades indígenas no decreto de criação da CAND é apontada como um ponto crítico, evidenciando a tentativa de apagamento da história e dos direitos dos Guarani e Kaiowá.
A conclusão ressalta a necessidade urgente de incluir a história indígena nos espaços escolares, com uma análise crítica e verdadeira dos eventos passados e presentes. A experiência pessoal do autor na RID reforça a importância de dar voz aos povos originários e combater as tentativas de apagamento de suas histórias, culturas e costumes. “Falar sobre a história indígena em Dourados é também lembrar a situação de passado e de presente dos povos originários pertencentes à região sul do atual estado de Mato Grosso do Sul”, conclui Gomes.










