Galípolo expõe contradição: crédito crescente alimenta endividamento recorde


Presidente do BC alerta para uso irresponsável do crédito e juros abusivos no cartão e crédito pessoal

Galípolo expõe contradição: crédito crescente alimenta endividamento recorde
Gabriel Galípolo em evento da Febraban Tech 2026 em São Paulo – Foto: Fernanda Luz

Galípolo, presidente do BC, critica a incoerência de comemorar expansão do crédito enquanto cresce o endividamento das famílias, impulsionado por uso inconsequente e juros elevados.

Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, não poupa críticas ao cenário atual do crédito no Brasil. Em sua fala na abertura da Febraban Tech 2026, em São Paulo, ele expôs uma contradição gritante: não se pode comemorar o aumento do crédito e, ao mesmo tempo, reclamar do endividamento recorde das famílias. Segundo Galípolo, o endividamento elevado é a consequência lógica da concessão de crédito, especialmente em um contexto de inclusão bancária ampliada entre os brasileiros de menor renda, intensificada pela pandemia e pelo uso massivo do Pix.

Apesar da renda disponível das famílias alcançar R$ 822 bilhões em maio de 2026, o maior da série histórica, e da taxa de desemprego recuar para 5,4%, o endividamento das famílias atingiu 49,8% da renda anual — um patamar preocupante, ainda mais quando se exclui o crédito imobiliário e o indicador permanece alto, em 31,1%. Galípolo classifica esse cenário como dissonante, pois o crescimento econômico não se traduz em saúde financeira para a população.

O presidente do BC enfatizou a necessidade urgente de educação financeira e uso responsável dos produtos de crédito. “A inclusão financeira é essencial e já ocorreu. Agora é preciso que as pessoas conheçam o melhor produto, a linha adequada e saibam usar os serviços de forma consciente”, afirmou. Ele ressaltou que o Banco Central está atuando para regular o ambiente competitivo, exigindo governança rigorosa das instituições para que o risco seja devidamente provisionado e que não haja empresas ganhando mercado à custa de práticas perigosas.

Galípolo também diferenciou o endividamento construtivo, como financiamentos imobiliários para aquisição de ativos, do endividamento problemático, oriundo do consumo efêmero. O foco da preocupação recai sobre linhas sem garantia, sobretudo o cartão de crédito, modalidade que conta com 96 milhões de usuários e mais da metade deles carregam dívidas com juros altos — o rotativo chega a 15,1% ao mês e o parcelamento a 9,3% ao mês.

Além do cartão, o crédito livre, como consignado privado e crédito pessoal não consignado, também contribuem para o cenário preocupante. O consignado privado cresceu 145% em um ano, atingindo R$ 102 bilhões, enquanto o crédito pessoal não consignado avançou 188% desde 2020, chegando a R$ 397,2 bilhões. As taxas de juros nessas modalidades alcançam até 149,5% ao ano, números que assustam e explicam a dissonância entre melhora do emprego e renda e o crescimento da inadimplência.

Em suma, Galípolo denuncia um ambiente financeiro onde o crédito fácil e mal utilizado cria uma bomba relógio para a economia familiar e para o mercado, exigindo providências duras e educação financeira para evitar que a festa do crédito termine em crise de inadimplência.


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