Cientista político alerta que excesso de casos transforma acusações em ruído para o eleitor

A repetição incessante de escândalos envolvendo governo e oposição faz o eleitor tratar denúncias como ruído, reduzindo impacto político e desgaste eleitoral, avalia cientista político Carlos Melo.
A sucessão rápida e incessante de escândalos políticos está transformando as denúncias em ruído na campanha eleitoral de 2026, segundo análise do cientista político Carlos Melo, professor do Insper. Em entrevista ao programa Mapa de Risco, do InfoMoney, Melo destacou que a velocidade com que um escândalo substitui o outro reduz drasticamente a capacidade de qualquer caso permanecer no centro do debate público e eleitoral.
“Estamos diante de uma vulgarização dos escândalos. O escândalo de ontem é ofuscado pelo de hoje, que por sua vez será superado pelo de amanhã”, afirmou Melo. Para o eleitor comum, que não acompanha política com atenção constante, esse bombardeio constante de acusações acaba sendo percebido como ruído, o que corrói o impacto político esperado por quem lança as denúncias.
Esse fenômeno é visível na disputa entre as campanhas de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Enquanto o PL aposta nas acusações envolvendo descontos indevidos do INSS e suspeitas sobre pessoas próximas a Lula, o PT revida com denúncias ligadas ao Banco Master e questionamentos sobre o próprio Flávio. Segundo Melo, essa troca constante de acusações cria um jogo de soma zero, onde nenhum lado consegue monopolizar a pauta da corrupção, e ambos se desgastam simultaneamente.
“Você joga uma bomba no quintal do vizinho, mas outra bomba cai no seu. Isso cria um ciclo de acusações e defesas que não gera ganhos reais para nenhum dos lados”, explicou o cientista político.
A analista política da XP, Bárbara Baião, corrobora essa avaliação, ressaltando que o bolsonarismo, que tinha a corrupção como uma bandeira política relevante devido à Operação Lava Jato, perdeu legitimidade para explorar o tema após os escândalos envolvendo Flávio Bolsonaro. Ela destaca que, embora o tema continue sensível, ele deixou de ser um trunfo unilateral na disputa eleitoral.
Melo alerta ainda para os riscos de uma campanha baseada predominantemente na troca de ataques. Ele sugere que a estratégia mais eficaz seria focar em reduzir a rejeição própria e apresentar saídas concretas para os problemas do país, ao invés de se concentrar em desgastar o adversário. “Ninguém está fazendo isso. A disputa se resume a aumentar a rejeição do outro, mas isso não necessariamente se traduz em ganhos de voto”, concluiu.
Essa análise revela o desgaste do ambiente político e a dificuldade dos candidatos em converter denúncias em vantagens eleitorais duradouras, sobretudo em um cenário saturado por escândalos e contra-ataques constantes.









