Polarização política intensifica busca por pertencimento e gera ansiedade

Estudo revela que a polarização afeta a estabilidade emocional, substituindo vínculos tradicionais por conflitos políticos

Polarização política intensifica busca por pertencimento e gera ansiedade
Manifestantes em protesto político refletem o clima de polarização no Brasil

A polarização política cria um senso intenso de pertencimento, mas compromete a estabilidade emocional, segundo estudo recente.

A polarização política e seus efeitos na saúde emocional da população

A polarização política tem se tornado um fenômeno cada vez mais presente no cotidiano, promovendo um forte senso de pertencimento entre seus adeptos, mas também gerando instabilidade emocional e ansiedade. Um estudo conduzido pela Universidade Brown, intitulado “O Custo Emocional do Engajamento Político”, analisou 1.788 participantes ao longo de oito semanas e constatou que a volatilidade emocional diária está fortemente associada ao extremismo ideológico (responsável por 9% da variação) e à polarização afetiva (5%). Essa instabilidade não se traduz apenas em tristeza acumulada, mas em uma verdadeira desregulação emocional que compromete a capacidade de processar informações em diversas esferas da vida.

A substituição dos vínculos tradicionais pela polarização política

A polarização política ocupa hoje o espaço antes preenchido por fontes tradicionais de pertencimento, como família, fé e associações cívicas, que vêm se enfraquecendo nas últimas décadas. No Brasil, por exemplo, a frequência religiosa entre jovens de 18 a 29 anos caiu 14 pontos percentuais entre 2012 e 2022. Em paralelo, a participação em associações cívicas nos Estados Unidos foi reduzida à metade entre a década de 1970 e 2000. A política, por sua vez, oferece uma presença constante e emocionalmente carregada, acessível a qualquer momento, mas que depende da existência de um inimigo comum para manter sua coesão.

O custo do pertencimento baseado no conflito e a manutenção do inimigo

O pertencimento político fundamentado no conflito exige que o inimigo permaneça como tal para garantir a continuidade dos laços grupais. Esse mecanismo explica a dificuldade em admitir nuances ou afastar a ameaça que o inimigo representa. O caso de uma evangélica que tentou separar a fala política de Lula e suas consequências espirituais evidencia como a redução do inimigo pode ser interpretada como traição dentro de grupos polarizados. Assim, a política se torna um espaço onde o vínculo se mantém enquanto o antagonismo perdura, mas em detrimento da resolução de problemas comuns e da construção de comunidades sólidas.

Diferenças entre movimentos sociais históricos e a polarização atual

Movimentos sociais que transformaram estruturas no século 20, como os pelos direitos civis, tiveram como base comunidades, igrejas e sindicatos, além de uma ideia construtiva do futuro. A indignação era o combustível, mas não o ódio. Em contraste, a polarização atual se funda muitas vezes no ódio e no antagonismo permanente, o que limita a duração do movimento à existência do inimigo. Essa dinâmica fragiliza a coesão social e impede avanços efetivos na resolução de questões estruturais.

Reflexões sobre a necessidade de pertencimento e os desafios contemporâneos

A instabilidade afetiva provocada pela polarização política é sintoma da escassez de pertencimento genuíno na sociedade contemporânea. Embora a política ofereça um alívio momentâneo para o vazio social e emocional, ela não supre a necessidade de vínculos profundos e significativos. A consequência é uma população emocionalmente instável, cuja capacidade de diálogo e compreensão é prejudicada, demandando reflexões sobre como reconstruir espaços de pertencimento que não dependam do conflito constante.

Fonte: www1.folha.uol.com.br