Em 2024, o Nordeste ultrapassa Sudeste em fatalidades no trânsito, refletindo desafios na segurança viária da região

O Brasil atingiu o maior número de mortos no trânsito em oito anos, com o Nordeste liderando os índices pela primeira vez.
Nordeste lidera mortes no trânsito no Brasil em 2024
Em 2024, o Brasil registrou o maior número de mortos no trânsito em oito anos, totalizando 37.150 vítimas fatais, um aumento de 6,5% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez, a região Nordeste assumiu a liderança nacional em mortes no trânsito, com 11.894 óbitos, superando o Sudeste, que teve 10.995 mortes apesar de ser a região mais populosa do país.
Segundo o estudo da organização Vital Strategies, baseado em dados oficiais do Ministério da Saúde, a predominância do Nordeste nas estatísticas representa uma mudança significativa no padrão regional da mortalidade viária. O Nordeste possui uma frota de veículos muito menor que o Sudeste — cerca de 22,3 milhões contra 59 milhões — o que torna os números ainda mais preocupantes.
Crescimento das mortes de motociclistas impulsiona índices no Nordeste
O aumento das fatalidades no Nordeste está fortemente relacionado ao crescimento expressivo das mortes de motociclistas. Em 2024, 6.116 pessoas que estavam em motos morreram em acidentes na região, número 60% maior que o registrado no Sudeste, com 3.820 casos.
A maior vulnerabilidade dos motociclistas, combinada com a precariedade da infraestrutura viária e a fiscalização insuficiente, contribui para essa alta. No Nordeste e Norte, mais da metade dos mortos no trânsito estavam em motos, enquanto no Sudeste essa proporção é menor, de 34,7%.
Especialistas como Dante Rosado, coordenador do programa de segurança viária da Vital Strategies, destacam que a motocicleta é um veículo com alto risco, agravado quando as vias apresentam sinalização inadequada e pavimentação ruim, situação comum em muitas rodovias nordestinas.
Condições da infraestrutura e fiscalização insuficiente agravam o cenário
Uma pesquisa da Confederação Nacional de Transportes (CNT) classificou seis das doze rodovias consideradas em péssimas condições como localizadas no Nordeste. A análise apontou problemas no pavimento, sinalização e geometria das estradas, responsáveis por aumentar o risco de acidentes graves.
Além das rodovias, as vias urbanas e rurais das periferias nordestinas apresentam desafios como superlotação de motos, muitas vezes transportando mais pessoas do que a capacidade permitida, o que aumenta a vulnerabilidade dos ocupantes.
O cenário é agravado pela fiscalização pouco rigorosa da velocidade e pelo baixo uso de equipamentos de segurança, especialmente capacetes, contribuindo para o aumento da letalidade.
Políticas públicas federais focam em prevenção e legalização de condutores
O Ministério dos Transportes destaca que adota uma abordagem ampla para combater a violência no trânsito, envolvendo educação, regularização de condutores e fiscalização. Programas como o CNH Brasil e a Medida Provisória do Bom Condutor buscam facilitar o acesso à habilitação e incentivar a condução responsável.
Segundo a pasta, mais de 20 milhões de brasileiros dirigem sem Carteira Nacional de Habilitação, fator que compromete a segurança viária nacional. Ao ampliar a legalidade dos condutores, espera-se reduzir os acidentes e fatalidades.
Ainda, o governo lançou iniciativas específicas para motociclistas, como a Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas e a elaboração do Programa Nacional de Segurança de Motociclistas, em alinhamento com o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), que visa reduzir em pelo menos 50% o número de mortes até 2030.
Especialistas reforçam a necessidade de ação coordenada e investimento estrutural
Para especialistas como Diogo Lemos, coordenador da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, os dados refletem falhas nas políticas públicas e na prioridade dada à segurança no trânsito. Além de investimentos em infraestrutura, ele ressalta a importância da fiscalização eficaz e do fortalecimento das ações estaduais e municipais.
A melhoria no transporte público também é apontada como fundamental para reduzir a dependência das motos, que vêm ganhando espaço devido à baixa oferta e qualidade dos serviços coletivos.
“Não basta investir somente no asfalto; é preciso construir infraestrutura segura, implementar fiscalização rigorosa e desenvolver uma cultura de respeito às normas de trânsito em todo o país”, conclui Lemos.
O desafio permanece grande para o Brasil, que precisa alinhar esforços para garantir um trânsito mais seguro e reduzir o número crescente de mortos no trânsito, especialmente na região Nordeste, recém-colocada no centro desse problema.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Folhapress










