Comunidade em Pernambuco cria área de reflorestamento para garantir ervas medicinais e rituais tradicionais

Em Inajá (PE), indígenas Tuxás percorrem 27 km para obter jurema sagrada, planta essencial para rituais e medicina tradicional, ameaçada pelas mudanças climáticas.
Os indígenas Tuxás, que vivem na aldeia Funil em Inajá (PE), localidade a 386 km do Recife, enfrentam um desafio crescente para manter viva uma tradição ancestral: o acesso à jurema sagrada (Mimosa tenuiflora). Essa planta é fundamental para os rituais religiosos e para o sistema medicinal do povo Tuxá, mas tornou-se cada vez mais rara na região devido às mudanças climáticas e à degradação ambiental.
A importância da jurema sagrada para os Tuxás e o contexto ambiental
A jurema sagrada é a planta central nos rituais de conexão espiritual dos Tuxás, usada para preparar o vinho que estabelece a ligação com os ancestrais. Além disso, tem propriedades medicinais para tratar enfermidades físicas e espirituais na comunidade. A pajé Anailio Inaê (Aline Tuxá), primeira mulher pajé da etnia, destaca que a escassez da planta na atual área da aldeia é consequência do solo degradado por anos de uso agropecuário e das chuvas irregulares típicas do clima semiárido.
O clima tem se mostrado cada vez mais instável, com tempestades concentradas em poucos dias e longos períodos de seca. Esse padrão dificulta o desenvolvimento das plantas medicinais, incluindo a jurema, pois as chuvas rápidas não favorecem a absorção gradual necessária para o cultivo.
Além do clima, o desmatamento é um problema grave. A região de Inajá está entre os municípios com maiores índices de desmatamento em terras indígenas entre 2020 e 2024, segundo o MapBiomas Alerta, comprometendo ainda mais a biodiversidade local.
Estratégias e desafios para a preservação das plantas medicinais
Para garantir a continuidade das práticas tradicionais, os Tuxás criaram uma área de reflorestamento ao lado do DDCom, espaço sagrado onde realizam seus rituais. O objetivo é cultivar espécies medicinais essenciais, como jurema, peão-roxo, umburana-de-cheiro, manjericão, alfavaca, entre outras.
Entretanto, o reflorestamento enfrenta desafios significativos:
Solo compactado e degradado devido ao histórico agropecuário.
Chuvas irregulares que dificultam o crescimento uniforme das plantas.
Necessidade de orações e rituais para que as mudas prosperem, conforme crença local.
Romildo Tuxá, responsável pela coleta e preparo do vinho da jurema, relata que, apesar das tentativas de plantio, poucas mudas vingam. Ele ressalta a diferença na forma como indígenas e fazendeiros tratam a natureza, destacando o respeito e cuidado dos primeiros em contraste com o desmatamento desenfreado dos segundos.
Como a comunidade mantém viva a tradição e cuida da saúde
Diariamente, a pajé Aline Tuxá conduz o sistema medicinal e religioso da aldeia, apoiada por membros autorizados chamados cabeças de toré. Eles coletam ervas frescas para preparar remédios caseiros (mezinhas) que tratam desde dores de dente até febres e doenças físicas e espirituais.
Os rituais realizados com a jurema, como o batismo dos curumins e a Alvorada – vigília com cânticos que prevê chuvas e colheitas –, são fundamentais para a identidade cultural e espiritual do povo tuxá.
Iniciativas e perspectivas para o futuro da jurema e dos Tuxás
Apesar das dificuldades, há otimismo para 2026, com sinais promissores na flora local, como o florescimento do umbu e as folhas do mandacaru, tradicionalmente associados à chegada das chuvas.
A aldeia mantém viva a esperança de restaurar a mata virgem e garantir que as próximas gerações tenham acesso às plantas sagradas. A criação do canteiro de reflorestamento é uma resposta ativa à degradação ambiental, demonstrando a resiliência e o compromisso dos Tuxás com a preservação de seu patrimônio cultural e natural.
Com o avanço das mudanças climáticas, a experiência dos Tuxás reforça a urgência de proteger ecossistemas sensíveis, respeitar conhecimentos tradicionais e integrar práticas sustentáveis para garantir a sobrevivência das populações indígenas e da biodiversidade brasileira.
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Imagem: Indígenas Tuxás em Inajá (PE) enfrentam escassez da jurema sagrada devido à degradação ambiental e clima irregular. Foto: Adriana Amâncio/Folhapress*
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Adriana Amâncio/Folhapress










