No interior de Jaguaré, Espírito Santo, a agricultura familiar, predominante em 78% das propriedades segundo o Incaper, passa por uma transformação notável. A rotina antes marcada por trabalho árduo ganha novos contornos com a chegada de jovens capacitados, impulsionando a adoção de tecnologias e novas formas de gestão.
Essa nova dinâmica molda um cenário onde a produtividade e a preservação ambiental se complementam, gerando empregos verdes e fortalecendo a economia local. A sucessão familiar, antes vista com incerteza, emerge como um mecanismo vital para preservar tradições e garantir a segurança alimentar da região.
A Família Biancardi, agora na quinta geração, é um exemplo emblemático dessa tendência. Eles personificam o futuro da agricultura, unindo o conhecimento ancestral ao que há de mais moderno no setor. A história da família ilustra como a permanência no campo pode revitalizar a economia e fortalecer a identidade capixaba.
Segundo Renan Queiroz, engenheiro agrônomo e professor da Faesa, a presença dos jovens no campo é uma tendência crescente, impulsionada pelas tecnologias e oportunidades de formação. “Antes, os proprietários rurais incentivavam os filhos a estudarem para ficarem na cidade porque a propriedade era vista como um lugar de sofrimento. Hoje, com a tecnologia, a família se transforma em uma empresa rural”, explica Queiroz.
Essa mudança de mentalidade, segundo o professor, garante não apenas renda, mas também qualidade de vida comparável aos centros urbanos. “O jovem entende que pode trabalhar no campo com acesso às tecnologias, aumentar a produtividade e ainda preservar o meio ambiente”, complementa Queiroz, enfatizando o papel crucial da sucessão familiar na manutenção da história e da economia local.
Jaguaré, com sua forte vocação agrícola, se destaca como polo de produção de café conilon e pimenta-do-reino. A predominância das pequenas propriedades demonstra a importância da agricultura familiar para o estado, onde sustentabilidade e renda caminham juntas, apesar dos desafios como custos de produção e variações climáticas.
A história da Família Biancardi se iniciou em 1984, quando Agenor Biancardi deixou o sul do estado para garantir que cada um de seus dez filhos seguisse na agricultura. A estratégia foi visionária: a cada casamento, ele presenteava o filho com terras em Jaguaré, criando uma rede de propriedades que hoje são administradas em conjunto.
Agenor Biancardi, aos 94 anos, relembra com orgulho sua trajetória: “Comecei do nada, do zero. Era tudo na enxada, na foice, no machado. A gente chegava em casa cansado… Hoje, agradeço muito a Deus. Tenho orgulho da família”. Sua visão de futuro permitiu que as gerações seguintes prosperassem na terra.
Alexandre Biancardi, bisneto de Agenor, com apenas 19 anos, representa a nova geração da agricultura familiar. Formado em agropecuária e estudante de Agronomia, ele aplica o conhecimento teórico da faculdade diretamente na lavoura, dividindo as responsabilidades com os familiares em um modelo de gestão compartilhada.
“Vovô tem a experiência grandiosa dele. Meu pai tem a dele, e eu venho com as novidades. A gente conversa, testa e decide junto. Isso dá certo porque existe respeito”, afirma Alexandre, ressaltando a importância da união entre as gerações para o sucesso da produção de café conilon e pimenta-do-reino.
Renan Queiroz destaca que a sucessão familiar está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento de empregos verdes. Jovens como Alexandre implementam tecnologias que tornam a lavoura mais eficiente e sustentável. “Isso contribui para aumentar a produtividade mesmo preservando. É agricultura sustentável, é emprego verde”, explica.
A continuidade das famílias no campo garante segurança alimentar, fortalece a economia local, mantém práticas sustentáveis e preserva a biodiversidade. Em Jaguaré, a sucessão rural não é apenas a sobrevivência da pequena propriedade, mas a garantia de um campo sustentável, produtivo e inclusivo.










