A devastação em Gaza após anos de conflito entre Israel e Hamas impõe um desafio de reconstrução em escala colossal. Organizações internacionais estimam que serão necessários pelo menos US$ 70 bilhões para reerguer a região, um valor que se aproxima de metade do montante investido pelos Estados Unidos no Plano Marshall para reconstruir a Europa após a Segunda Guerra Mundial.
O Plano Marshall, que injetou o equivalente a US$ 170 bilhões (em valores ajustados) em 17 países europeus, visava restabelecer a economia e a infraestrutura do continente. A dimensão da destruição em Gaza, onde cerca de 80% das estruturas foram danificadas ou destruídas desde outubro de 2023, exige um esforço similar, segundo especialistas.
Hospitais, escolas, redes de energia e sistemas de água e esgoto foram gravemente comprometidos, deixando mais de 2 milhões de pessoas em situação de emergência humanitária. O restabelecimento desses serviços essenciais é crucial, mas a reconstrução enfrenta obstáculos que transcendem as questões financeiras.
A Faixa de Gaza permanece sob bloqueio israelense e, apesar dos acordos de cessar-fogo, continua a ser alvo de bombardeios. Essa instabilidade política e a falta de um ambiente pacífico dificultam a atração de investimentos massivos e o transporte de materiais necessários para a reconstrução, conforme explica o economista Marcio Sette Fortes, do Ibmec-RJ.
“Embora Gaza seja relativamente pequena, a reconstrução será complexa por vários motivos: primeiro, não acontecerão investimentos massivos sem que o território esteja pacificado; segundo, a área está arrasada, e os volumes de materiais necessários serão muito grandes, porém não há serviços de ferrovia ou de rodovia”, afirma Fortes. A ONU estima que, nos próximos três anos, serão necessários US$ 20 bilhões para as primeiras etapas da reconstrução, focando no restabelecimento de serviços urgentes e na remoção de entulho.
A quantidade de detritos gerados em Gaza ultrapassa 61 milhões de toneladas, superando o volume da guerra na Ucrânia. A remoção desse entulho, que pode levar décadas, é ainda mais complexa devido à presença de materiais contaminados e munições não detonadas, representando sérios riscos ambientais, como alerta Jamon Van Den Hoek, da Universidade do Estado de Oregon.
A contaminação do aquífero que abastece a população agrava a crise hídrica, com um aumento significativo nos casos de doenças infecciosas. A destruição da agricultura local também aprofunda a crise alimentar, com mais de 500 mil pessoas enfrentando a fome. A ONU aponta como prioridades a restauração dos sistemas de água e saneamento, bem como a remoção de entulhos para conter doenças e evitar novas contaminações.
Apesar da disposição de países árabes, da União Europeia, do Canadá e dos EUA em contribuir, o financiamento e o início da reconstrução ainda são incertos. A advogada Zaha Hassan, da Fundação Carnegie, adverte que a estimativa de US$ 70 bilhões da ONU pode ser conservadora, dada a magnitude da devastação e a urgência da situação humanitária.
“Há enorme necessidade de ajuda imediata. De 5% a 8% da população foi morta ou mutilada. Como remover os escombros, cujo processo levará décadas? E onde depositá-los? Como recolher os 10 mil corpos que, acredita-se, estão sob os escombros? Será necessário bem mais do que levar tratores”, conclui Hassan, enfatizando a complexidade e a urgência da reconstrução de Gaza.










