Lula assume presidência do Mercosul em clima de tensão com Milei


Aliado à integração regional e crítico do ultraliberalismo argentino, Lula herda o comando do bloco econômico em meio a impasses comerciais e climáticos.

O presidente Lula assume presidência do Mercosul Mercosul, em um momento em que o bloco passa por turbulências internas e externas. A transferência de comando será feita pelo presidente argentino, Javier Milei, um crítico declarado tanto do Mercosul quanto de Lula.

Lula assume presidência do Mercosul
Foto: Ricardo Stuckert/PR

O reencontro entre os dois líderes, com histórico recente de trocas de farpas e visões antagônicas sobre a integração sul-americana, ocorre durante a 66ª Cúpula de Chefes de Estado do bloco econômico.

Clima de tensão marca encontro com Milei

Este será o primeiro encontro oficial entre Lula e Milei desde que o argentino tomou posse. Os dois apenas se cumprimentaram brevemente durante o G20, no fim do ano passado, no Rio. A relação é marcada por ataques públicos de Milei, que considera o Mercosul uma “trava ao livre comércio” e já ofendeu diretamente o presidente brasileiro durante a campanha.

Para Lula, o Mercosul é estratégico. Ele o vê como um pilar fundamental da política externa do Brasil e como peça-chave para garantir estabilidade comercial e política na região. A troca de comando, portanto, não será apenas simbólica: representará um embate de projetos de integração regional diametralmente opostos.

Pauta ambiciosa: integração, indústria e meio ambiente

Ao assumir a presidência rotativa até dezembro, Lula leva uma pauta extensa e ambiciosa para a mesa de negociações. Entre os principais focos, estão:

  • Avançar nas negociações com a União Europeia, que se arrastam há mais de duas décadas, mas ganharam impulso recentemente.

  • Reformar a Tarifa Externa Comum, com o objetivo de torná-la mais competitiva e ajustada à realidade atual do comércio internacional.

  • Fortalecer a indústria regional, especialmente nos setores automotivo e de açúcar, buscando atrair investimentos e garantir segurança jurídica.

  • Lançar o “Mercosul Verde”, programa voltado à promoção da agricultura de baixo carbono e à valorização ambiental do bloco.

  • Intensificar a cooperação em segurança pública, focando no combate às facções criminosas nas fronteiras.

  • Reforçar a participação social, com políticas voltadas a direitos humanos, igualdade de gênero e inclusão de povos tradicionais.

Milei representa o maior desafio interno

A condução da presidência do Mercosul exigirá de Lula habilidade para lidar com divergências internas, especialmente com Milei. O argentino tem buscado alternativas bilaterais fora do bloco e tenta reduzir o protagonismo do Mercosul, em linha com sua agenda ultraliberal.

O desafio também se estende a outros temas, como a consolidação da entrada da Bolívia, que precisa se adaptar às normas do bloco até 2028, e à resistência política ao “Mercosul Verde”, sobretudo vinda de setores conservadores.

Brasil tem muito a ganhar com o bloco

Apesar das dificuldades, a relevância do Mercosul para a economia brasileira é evidente. De janeiro a maio de 2025, o comércio intrabloco movimentou US$ 17,5 bilhões, resultando em um superávit de US$ 3 bilhões para o Brasil. O destaque vai para as exportações de produtos industrializados, que representam cerca de 95% das vendas para a Argentina, garantindo empregos e impulsionando a indústria nacional.

Diplomacia testada: Lula x Milei

Este ciclo da presidência rotativa será um teste diplomático para Lula. O petista já demonstrou ter experiência em lidar com divergências políticas no plano internacional. Mas, desta vez, o confronto de ideias com Milei é mais direto, com ataques recentes que extrapolaram o debate econômico.

Ainda assim, o presidente brasileiro aposta no pragmatismo para manter a coesão do bloco e buscar avanços concretos. A aposta do Planalto é de que, mesmo com divergências ideológicas, há espaço para cooperação prática — principalmente em temas como comércio, segurança e meio ambiente.

A presidência rotativa do Mercosul entregue a Lula não será apenas um cargo simbólico. Ela carrega uma disputa de projetos de integração regional, um embate com Milei e a expectativa de avanços em negociações históricas. Se bem conduzido, o período pode reafirmar o protagonismo do Brasil na América do Sul e reposicionar o bloco no cenário global.

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