A investigação da primeira morte suspeita por metanol em Mato Grosso do Sul, envolvendo um jovem de 21 anos, reacende o alerta sobre os perigos desta substância tóxica. Em nível nacional, o Ministério da Saúde monitora a situação, registrando 43 casos suspeitos, concentrados principalmente em São Paulo (com dez confirmações e 29 em investigação) e Pernambuco (com quatro casos). Além disso, há uma morte confirmada e sete sob investigação, evidenciando a gravidade da situação.
O metanol, um álcool industrial distinto do etanol presente em bebidas, é um veneno potente, letal mesmo em pequenas quantidades. A gastroenterologista Luciane França Ramos, do Hospital Universitário, explica: “É matéria-prima de solventes, combustíveis, tintas, adesivos, compensados, pesticidas e vários outros produtos do dia a dia, mas não tem qualquer uso seguro para consumo humano”. Essa ampla utilização industrial contrasta com seu extremo perigo para a saúde humana.
A diferença crucial entre metanol e etanol reside em sua origem e toxicidade. Enquanto o etanol é produzido pela fermentação de açúcares e utilizado em bebidas e medicamentos, o metanol é derivado de carvão, gás natural e biomassa. “É extremamente tóxico e, apesar de muito utilizado na indústria química, não pode ser ingerido ou inalado”, enfatiza Ramos, ressaltando a necessidade de evitar qualquer contato com a substância.
Ao ser ingerido, o metanol é rapidamente metabolizado pelo fígado, produzindo formaldeído e ácido fórmico, compostos altamente tóxicos que atacam múltiplos órgãos. Os sintomas de intoxicação surgem à medida que os órgãos são afetados, incluindo náusea, vômito, dor abdominal, distúrbios visuais e tontura. A médica detalha que o quadro “pode evoluir para cegueira, agitação, torpor, coma, insuficiências renal e circulatória até o óbito”.
O Ministério da Saúde, por meio da Nota Técnica Conjunta nº 360/2025, destaca um período de latência de 12 a 24 horas até o surgimento dos sintomas graves, que pode ser prolongado se houver ingestão concomitante de etanol. Diante da ausência de uma dose segura, Luciane Ramos enfatiza: “Não existe dose segura de ingestão de metanol”. A falsificação de bebidas destiladas é apontada como uma das principais causas de intoxicação.
Embora o antídoto específico, o fomepizol, não esteja disponível para compra no Brasil, a Anvisa está agilizando sua importação. Até lá, o Ministério da Saúde orienta os serviços de saúde a utilizarem etanol como antídoto emergencial, juntamente com medidas de suporte como ácido folínico e bicarbonato de sódio. Em casos graves, hemodiálise pode ser necessária para remover o metanol do organismo.
Diante desse cenário, a prevenção é fundamental. A médica Luciane Ramos adverte que “evitar o consumo é a medida mais segura”, e em caso de ingestão, é crucial verificar a procedência da bebida. O Ministério da Saúde reforça a importância de evitar produtos sem rótulo ou lacre, com preços muito baixos ou vendidos em embalagens improvisadas, considerados de alto risco.
O Ministério da Saúde considera a intoxicação por metanol um Evento de Saúde Pública (ESP), exigindo notificação imediata de casos suspeitos ou confirmados. A população pode notificar através do Disque-Notifica (0800-644-6645) e do e-mail notifica@saude.gov.br. Para Luciane, “A falsificação de bebidas gera lucro, mas aumenta o risco de intoxicação. A falta de fiscalização adequada e a desinformação colaboram para que isso aconteça”.










