Longe dos estereótipos ligados ao satanismo, o artista visual e tatuador Kalebe Mazzine busca ressignificar a bruxaria no contexto contemporâneo. Em seu espaço de trabalho, adornado com símbolos desenhados a giz, pedras cuidadosamente dispostas e o aroma de plantas, Kalebe desconstrói a imagem macabra frequentemente associada à prática. Para ele, a bruxaria em 2025 transcende a mera receita, representando um caldeirão de ingredientes espirituais únicos, onde ciência, ancestralidade e autoconhecimento se entrelaçam.
Kalebe descreve a bruxaria como uma filosofia de vida que conecta o indivíduo ao passado, mantendo “um ouvido na ciência e outro na floresta”. Sua jornada pessoal rumo ao reconhecimento como bruxo teve início na adolescência, impulsionada pela curiosidade em explorar culturas ancestrais. “Aos 16 anos me afastei totalmente do cristianismo para iniciar um processo comigo mesmo. Percebi que as filosofias antigas me são para além dos dogmas”, revela.
Inspirado pelas raízes indígenas e ciganas de sua família, Kalebe mergulhou no estudo da magia natural, buscando compreender os ensinamentos transmitidos pela natureza. Ele explica que a bruxaria se manifesta na integração dos quatro elementos – água, fogo, ar e terra – à essência individual, promovendo um resgate ancestral e cultural. Este processo, segundo ele, é fundamental para a bruxaria moderna, que se concentra em como o indivíduo lida com o presente no espaço em que está inserido.
Desmistificando a imagem do bruxo ligado a rituais obscuros, Kalebe enfatiza que a bruxaria se concentra no mundo natural, não no sobrenatural. “Você tem que aprender a escutar o mundo natural, não o sobrenatural”, afirma, ressaltando a importância de focar na experiência humana e na compreensão da matéria como manifestação de camadas sutis da realidade. Para ele, ser bruxo envolve um movimento filosófico que exige conhecimento, atenção às leis da natureza e à ciência, além de uma conexão com psicologia, medicina, educação e questões sociais.
Kalebe se identifica como um bruxo macumbista, integrando em sua prática os saberes ancestrais dos terreiros de umbanda e candomblé. “Preciso ter a minha base e raízes consolidadas para ter esse intercâmbio cultural”, explica. Ele enfatiza que a bruxaria se nutre de diversas fontes, permitindo a cada indivíduo criar sua própria prática espiritual, unindo elementos do terreiro, do budismo e de caminhos xamânicos.
Em relação ao preconceito que associa a bruxaria ao satanismo, Kalebe esclarece que os dois conceitos não estão intrinsecamente ligados. Ele explica que o satanismo, muitas vezes, representa uma contravenção ao governo cristão e moralista, enquanto a bruxaria pode ser entendida como uma prática mágica independente de uma religião específica. “Para uma pessoa ser bruxa não precisa necessariamente se colocar dentro de uma filosofia específica ou religião”, afirma.
Através do benzimento, utilizando elementos como pedras, flores e ervas, Kalebe busca promover a cura e o bem-estar. Ele explica que o quebra-demanda serve para dissipar energias negativas, enquanto o manjericão harmoniza as emoções e a samambaia fortalece o espírito. Atualmente, Kalebe desenvolve o projeto ‘Círculo Encantado’, onde pratica o benzimento em espaços públicos e terreiros, além de ministrar oficinas sobre bruxaria natural.










