Presidente viu que bandeira do "rico contra pobre" rendeu crescimento em sua popularidade e nas redes sociais
A súbita guinada do Governo Federal em apoio à proibição da escala de trabalho 6×1 chama atenção não apenas pelo conteúdo da proposta, mas, sobretudo, pela conveniência política de seu timing. Trata-se de uma reviravolta que escancara um velho vício da política brasileira: a apropriação de pautas como moeda de troca para salvar popularidade em baixa. Neste caso, o Partido dos Trabalhadores, que até pouco tempo ignorava ou minimizava o debate, agora se veste de defensor aguerrido dos direitos trabalhistas. Não por princípio, mas por cálculos óbvios: 2026 está logo ali.

Mas afinal, por que o governo não embarcou na proposta em 2024 ou no início de 2025? A razão para isso estava diretamente ligada ao xadrez político e econômico daquele momento. De um lado, a equipe econômica tentava a todo custo manter o discurso de previsibilidade fiscal e agradar o mercado. Logo, alterar regras trabalhistas poderia gerar ruído entre investidores e setores empresariais. De outro, havia uma preocupação clara em não tensionar a relação com o varejo e as federações do comércio, que fazem forte lobby no Congresso e têm influência direta sobre empregos e arrecadação. Mesmo a base do PT evitou tocar no tema, receosa de provocar um racha em setores que, embora não sejam aliados históricos, poderiam se mostrar úteis no avanço de outras pautas mais prioritárias ao Planalto. O resultado foi um silêncio conveniente e agora, em julho de 2025, uma reviravolta incoerente.
A chamada escala 6×1, prevista no artigo 67 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), determina que o trabalhador deve ter direito a um repouso semanal de 24 horas consecutivas, preferencialmente aos domingos. Esse modelo vem sendo historicamente flexibilizado por decisões judiciais e acordos coletivos, especialmente no setor de comércio e serviços. Mas, muitas outras áreas de atuação já exercem historicamente a escala 5×2, majoritariamente de segunda a sexta-feira, com folga para os funcionários nos sábados e domingos.
A proposta em discussão, encabeçada por parlamentares do PSOL e agora endossada pelo próprio presidente da República, primeiro em seu discurso à nação às vésperas do feriado do Dia do Trabalho, e mais recentemente em uma fala pública na última sexta-feira (11), visa assegurar que, no mínimo, o trabalhador tenha dois dias de folga obrigatoriamente por semana. A proposta encontra respaldo na demanda de sindicatos, especialmente ligados ao setor comerciário, que denunciam a precarização dos vínculos familiares e sociais de trabalhadores submetidos a escalas ininterruptas.
Não se trata de uma demanda nova. A luta contra a escala 6×1 no comércio é histórica, sobretudo entre os sindicatos urbanos. O que chama atenção é que, em 2023, o governo Lul, o mesmo que hoje levanta a bandeira de uma jornada de trabalho reduzida, não moveu um dedo quando a pauta foi discutida. Na prática, virou as costas. A então proposta de alteração da escala sequer foi pautada como prioridade no Executivo, e integrantes da base aliada a criticaram abertamente. O silêncio de Lula e de seus ministros à época foi interpretado como um aceno ao empresariado. Agora, diante de uma crise de imagem crescente, a retórica muda e com ela, o alinhamento ideológico do governo.
Segundo as última pesquisas, a desaprovação do governo Lula vem caindo após alcançar patamares recordes. Tudo isso pela campanha de que é preciso taxar ricos e também devido a taxação de 50% definada por Donald Trump em todos os produtos exportados pelo Brasil. Apesar disso, o cenário para Lula é ainda preocupante quando se observam os dados mais recentes da Paraná Pesquisas, que apontam rejeição majoritária ao governo em estados-chave, inclusive entre eleitores que votaram no presidente em 2022. É nesse contexto que a pauta trabalhista volta ao centro do debate. Mas não por convicção, por conveniência.
A guinada não é isolada. Vem acompanhada de outras medidas de claro apelo eleitoral, como a proposta de isenção de Imposto de Renda para quem ganha até dois salários mínimos que deve ser votada antes do recesso parlamentar. Economistas apontaram a falta de planejamento e a incoerência entre a renúncia de arrecadação e o discurso de responsabilidade fiscal. Os próprios parlamentares notaram que lá no Dia do Tabalho, o anúncio do enfrentamento a escala 6×1 foi feito de forma precipitada e politicamente calculada, ao lado de um pacote de ajuste fiscal que, na prática, anula boa parte do ganho social pretendido. A conta não fecha, mas o governo aposta que a narrativa compensa mais que a matemática.
A tentativa do governo de reescrever sua postura frente à escala 6×1, agora com discursos cada vez mais inflamados e apoio público à PEC, é mais um capítulo dessa estratégia. A imprensa mesmo vem expondo, recentemente, que o PT decidiu “abraçar” a proposta para tentar conter o derretimento da imagem de Lula entre os trabalhadores. É o velho jogo do espelho: o que antes era incômodo, agora serve de bandeira, desde que possa render dividendos eleitorais.
Do ponto de vista técnico, a proposta tem impactos diretos nas relações trabalhistas e operacionais do comércio. Estima-se que mais de 8 milhões de brasileiros atuem no setor varejista, boa parte em jornadas rotativas. A mudança na regra afetaria escalas de trabalho, políticas de compensação e até mesmo a precificação de serviços. Embora seja legítimo defender melhores condições de descanso e convivência familiar, o debate exige responsabilidade. Transformar isso em uma vitrine política arrisca banalizar uma conquista social em potencial.
Além disso, a forma como o governo tenta se apropriar da pauta reforça um padrão problemático: quando a popularidade cai, retoma-se uma retórica progressista que havia sido convenientemente silenciada. Foi assim com a taxação das grandes fortunas, com o marco temporal indígena e agora com a escala 6×1. O resultado é um governo que, aos olhos do eleitor, parece cada vez mais movido por pesquisas de opinião do que por compromissos programáticos.
A democracia perde quando políticas públicas são conduzidas a reboque de conveniências eleitorais. O trabalhador perde quando suas pautas legítimas são manipuladas como moeda de escambo por aprovação em pesquisa. E o próprio governo perde, ao se mostrar volúvel e incoerente, características que a sociedade brasileira, cansada de discursos vazios, tem aprendido a rejeitar.
Mais do que apoiar ou rejeitar a proposta sobre a escala 6×1, o que está em jogo aqui é a credibilidade do discurso político. Não se sustenta um projeto de país em cima de reações repentinas devido a dados de opinião. A coerência é o mínimo que se espera de quem pede um voto. E no caso do governo, essa tal coerência parece ter tirado folga, mas sem data para voltar.
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