Ricochete

A política tem dessas ironias que dispensam comentário — mas rendem coluna. O episódio envolvendo Rafael Azevedo Perich é um bom exemplo. Apresentado como voz vigilante ao denunciar uma suposta situação de desvio de função na Prefeitura de Curitiba, ele acabou exposto por um detalhe nada trivial: o crachá que carrega não é exatamente o que diz portar. Segundo sua conta no Instagram, se apresenta como integrante do gabinete do deputado Requião Filho, mas consta, de fato – conforme dados da ALEP referente a janeiro de 2026, como servidor da estrutura administrativa da Assembleia Legislativa. A diferença pode parecer burocrática, mas politicamente é enorme. Afinal, quem se coloca na linha de frente de denúncias costuma ser cobrado pelo mesmo rigor que exige dos outros. O episódio produz um efeito clássico da política local: o denunciante vira pauta. Não pelo conteúdo da denúncia em si, mas pela coerência entre discurso e posição funcional. Em tempos de redes sociais e militância permanente, a fronteira entre atuação política, institucional e narrativa pessoal é cada vez mais sensível. No fim, o chamado “tiro certeiro” acabou com ricochete. E deixou no ar a pergunta que Brasília, Curitiba e qualquer praça política conhecem bem: quem fiscaliza o fiscal quando o discurso não bate com o cargo?

Lulinha na Mira

Reportagem do site Metrópoles revelou que ex-dirigentes do INSS fecharam delação premiada e colocaram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no circuito de relatos que envolvem interlocuções e relações com investigados no escândalo bilionário que atingiu aposentados e pensionistas. O episódio reacende um roteiro já conhecido: negócios privados orbitando estruturas públicas e o peso inevitável do sobrenome presidencial pairando sobre a narrativa. Delação não condena, mas ilumina bastidores — e, quando a luz alcança o entorno familiar do poder, o desgaste político é automático. No Planalto, a preocupação não é apenas jurídica, mas simbólica. A repetição de menções a Lulinha em investigações reforça a dificuldade crônica do lulismo de separar projeto político e núcleo familiar. Cada novo capítulo reabre cicatrizes antigas e mina o discurso de normalidade. Mais do que o desfecho do caso, o problema é o enredo que insiste em se repetir. E, para um governo que tenta vender estabilidade, ter o filho do presidente novamente citado em delação é tudo, menos detalhe.